A morte de Maria das Dores do Nascimento Batista, aos 84 anos, após quase um mês de internação hospitalar em Natal, trouxe à tona a perigosa realidade da ciguatera no Rio Grande do Norte. O falecimento, ocorrido na noite da última segunda-feira (25), está sob investigação pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) como um caso grave de intoxicação alimentar provocado pela ingestão de peixe contaminado. A vítima, conhecida como Dona Dorinha, residia em Alto do Rodrigues e consumiu o pescado da espécie bicuda antes de apresentar os primeiros sinais da patologia, que se manifestaram apenas duas horas após o almoço.
O cenário epidemiológico no estado preocupa as autoridades sanitárias. Até abril deste ano, o sistema de saúde contabilizou mais de 110 casos suspeitos, revelando uma recorrência que ultrapassa o âmbito familiar de Dona Dorinha. Em episódios distintos, famílias inteiras e até clientes de restaurantes buscaram atendimento médico com quadros clínicos similares. A Sesap reforça que as toxinas, produzidas por microalgas presentes em ecossistemas de corais e recifes, acumulam-se na cadeia alimentar, passando de peixes menores para carnívoros de grande porte. O fator de maior risco reside na invisibilidade da substância, que não altera o sabor, o odor ou a aparência do alimento e permanece estável mesmo após métodos tradicionais de preparo, como cozimento, salga ou congelamento.
A investigação do caso de Dona Dorinha conta com o apoio da Vigilância Sanitária, que recolheu amostras do peixe consumido pela idosa e por sua prima, esta última, de 74 anos, sobreviveu após dois dias de cuidados hospitalares. A análise laboratorial do pescado, contudo, é um processo moroso que pode levar até 60 dias para oferecer uma resposta conclusiva. A toxicidade tende a se concentrar em partes específicas, como cabeça, vísceras e ovas, e os efeitos no organismo humano abrangem desde distúrbios gastrointestinais severos até complicações neurológicas persistentes, que podem se estender por meses.
Desde o primeiro surto documentado no estado em 2022, a lista de espécies associadas à contaminação tem se expandido. Embora a bicuda, ou barracuda, seja frequentemente citada, registros apontam riscos também no consumo de cioba, guarajuba, arabaiana e dourado. Sem um antídoto ou protocolo clínico específico, o tratamento da ciguatera limita-se ao controle dos sintomas. Diante deste quadro, a recomendação oficial é imediata: em caso de mal-estar após o consumo de pescados, o paciente deve buscar atendimento médico informando o ocorrido nas últimas 48 horas e, sempre que possível, preservar amostras do alimento para análise técnica, evitando peixes de procedência incerta.





