A herança do silêncio e o peso da urna: o despertar tardio das igrejas

​Documento da CNBB confronta passado escravocrata da Igreja Católica e alerta para a manipulação religiosa no atual cenário eleitoral brasileiro.

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​A história brasileira carrega uma cicatriz profunda que, por séculos, contou com a conveniência de instituições pilares da sociedade. A Igreja Católica, embora tenha abrigado vozes isoladas de resistência desde o século XV, demorou até o século XIX para consolidar uma postura institucional enfática contra a escravização de seres humanos. Esse reconhecimento tardio não é apenas uma nota de rodapé histórica, mas o ponto de partida para um debate urgente sobre reparação e ética no uso da fé.

Recentemente, a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) trouxe à tona uma reflexão que transpõe as paredes dos templos. Ao alinhar-se à classificação da ONU sobre o tráfico transatlântico como um crime contra a humanidade, o clero brasileiro admite que o país ainda não encarou seus fantasmas racistas com a coragem necessária. A admissão de uma “dívida de reparação” coloca as instituições religiosas em uma encruzilhada: o discurso de fraternidade deve, necessariamente, traduzir-se em ações práticas contra o preconceito estrutural.

No entanto, o cenário atual apresenta novas camadas de complexidade. Enquanto o catolicismo tenta acertar contas com o passado, setores do neopentecostalismo trilham um caminho perigoso ao demonizar religiões de matriz africana. Esse movimento não apenas fere a liberdade de crença, como também alimenta um ciclo de exclusão que a própria história já provou ser catastrófico. A fé, quando utilizada como ferramenta de segregação, distancia-se de sua função social e torna-se combustível para a intolerância.

​O desafio ganha contornos ainda mais nítidos no calendário eleitoral. A máxima de que o voto não possui valor monetário, mas gera desdobramentos reais na vida cotidiana, serve como escudo contra o aliciamento e a compra de consciências. Em tempos de desinformação orquestrada e manipulação pelo medo, agora potencializadas por algoritmos e novas tecnologias, a integridade do debate público corre riscos inéditos.

Proteger a legitimidade do processo democrático exige que a religião deixe de ser instrumentalizada para fins de poder. Escolher representantes com base em propostas voltadas à justiça socioambiental e à proteção dos vulneráveis é, no fundo, um exercício de responsabilidade civil. Se a história ensina que o silêncio do passado cobrou um preço alto, o presente exige que a consciência na urna seja o primeiro passo para não repetir os mesmos erros.

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