Um mergulho nas águas do Parcel das Paredes, no litoral de Caravelas, Bahia, trouxe um fôlego renovado a pesquisadores que monitoram os impactos do aquecimento dos oceanos. Em uma expedição recente, a equipe se deparou com uma imensa colônia de coral-de-fogo (Millepora alcicornis) totalmente preservada e sem qualquer sinal de branqueamento. A espécie, exclusiva do Brasil e sensível à elevação da temperatura do mar, encontra-se perto do desaparecimento na região, o que tornou o achado um indicativo raro de resistência ambiental.
O biólogo Guilherme Dutra, integrante da expedição e pesquisador associado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), registrou a presença de aproximadamente 14 das 21 espécies de corais conhecidas no Banco de Abrolhos em uma única descida. A diversidade atesta a riqueza do ecossistema que se estende por 46 mil quilômetros quadrados na costa brasileira, abrigando a maior formação recifal do Atlântico Sul. Essas águas quentes funcionam ainda como refúgio reprodutivo para as baleias-jubarte, que viajam anualmente da Antártida para ter seus filhotes no litoral baiano.
Apesar da vitalidade em alguns trechos, o cenário exige ação imediata. O próprio Parcel das Paredes, situado entre as fronteiras do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e da Reserva Extrativista (Resex) do Cassurubá, sofre com o esgotamento dos estoques de peixes, resultado direto de anos de atuação de frotas industriais. Essa realidade atinge em cheio as populações tradicionais. Segundo Joelma Pinheiro da Silva, presidente da Associação Mãe dos Moradores da Resex Cassurubá, a garantia de sobrevivência dessas comunidades depende intrinsecamente da pesca artesanal e, por consequência, da saúde e do equilíbrio do oceano.
O apelo das lideranças locais, ambientalistas e agentes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) foca na ampliação urgente das áreas de proteção integral. A pressão não vem apenas da pesca em larga escala. Dados oficiais da Agência Nacional de Mineração (ANM) revelam dezenas de processos minerários ativos na região, com destaque para o interesse na extração de sal-gema, atividade com histórico recente de severos danos socioambientais e colapsos estruturais no Brasil. Somam-se a isso os blocos de exploração de petróleo e gás ofertados nas proximidades, desenhando um horizonte de risco iminente para a fauna marinha.
Para tentar frear o avanço dos grandes empreendimentos, iniciativas como o coletivo Abrolhos Para Sempre atuam no mapeamento biológico desde o norte do Espírito Santo até o extremo sul baiano. O objetivo central é fornecer embasamento científico sólido para a definição de novas zonas prioritárias de conservação. A sobrevivência de organismos formadores de recifes e a manutenção da cultura e do sustento de milhares de famílias litorâneas dependem agora de uma postura estatal firme para frear a exploração predatória e garantir que o santuário permaneça vivo.






