O silêncio do “Sicário”: Morre em BH peça-chave de esquema que mirava de jornalistas a sistemas da Interpol

​Luiz Phillipi Mourão, apontado como o braço operacional de um grupo liderado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, faleceu após tentativa de autoextermínio sob custódia policial

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A engrenagem operacional por trás de um dos grupos mais sofisticados de monitoramento e lavagem de dinheiro em Minas Gerais perdeu sua peça central. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido no submundo como “Sicário”, morreu na noite desta sexta-feira (6), em Belo Horizonte. Internado no Hospital João XXIII desde a última quarta-feira, Mourão estava sob custódia da Polícia Federal (PF) quando atentou contra a própria vida, um desfecho drástico para o homem que detinha as chaves dos segredos da organização autointitulada “A Turma”.

As investigações traçam o perfil de um operador híbrido. Se no passado Mourão atuava na agiotagem, sua ascensão ao núcleo de confiança do banqueiro Daniel Vorcaro o transformou em um especialista em inteligência paralela. De acordo com o relatório da PF, o “Sicário” não apenas coordenava equipes, mas possuía uma capacidade de infiltração digital que desafiava a soberania estatal. Ele é acusado de acessar indevidamente bases de dados restritas do Ministério Público Federal, da própria Polícia Federal e, em um nível de audácia internacional, sistemas do FBI e da Interpol.

O raio de ação de Mourão estendia-se para além do roubo de dados. Ele era o executor da “limpeza” digital do grupo, mobilizando esforços para derrubar perfis e conteúdos críticos a Vorcaro em plataformas sociais. O controle, contudo, também era físico e psicológico: antigos funcionários do Banco Master eram alvos frequentes de suas táticas de intimidação. O caso mais emblemático de sua periculosidade surge em diálogos interceptados, onde Vorcaro teria solicitado a Mourão a organização de um assalto e uma agressão física contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo.

No campo financeiro, a atuação de Mourão era igualmente robusta. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) sustenta uma denúncia de que ele movimentou cerca de R$ 28 milhões em contas de empresas de fachada entre 2018 e 2021. O esquema, descrito como uma pirâmide financeira, utilizava a triangulação de valores para ocultar o lucro obtido através de crimes contra a economia popular, configurando a clássica lavagem de dinheiro.

Análises de inteligência da Polícia Militar reforçam que, mesmo com tentativas de apagar rastros digitais, o papel de liderança de Mourão na estrutura criminosa era inequívoco.
​A defesa de Luiz Phillipi manifestou surpresa com o incidente, alegando que o cliente não apresentava sinais visíveis de abalo psíquico ou físico antes da internação. A morte do “Sicário” ocorre em um momento crítico da instrução processual, silenciando o homem que coordenava a interface entre o capital financeiro e o monitoramento clandestino de autoridades e cidadãos. Com a morte do Mourão, a Polícia Federal agora foca em desvendar a extensão total das brechas de segurança que permitiram a um investigado transitar com tamanha liberdade pelos sistemas mais sensíveis do planeta.

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