A geração .com e o fim das prateleiras ideológicas

​Jovens nascidos no século 21 rejeitam binarismo político e equilibram pautas de costumes com ceticismo sobre a máquina pública

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​O eleitorado brasileiro que abriu os olhos pela primeira vez sob a égide do novo milênio não cabe mais nos rótulos que definiram as disputas eleitorais das últimas décadas. De acordo com um levantamento estratégico da consultoria Quaest, os cidadãos da chamada “Geração .com”, aqueles nascidos entre 2000 e 2009, operam em uma frequência distinta das polarizações tradicionais. Esse grupo demonstra uma fluidez pragmática, absorvendo pautas progressistas sem necessariamente abraçar a cartilha clássica da esquerda, ao mesmo tempo em que mantém pés fincados em bases conservadoras.
​O estudo propõe uma segmentação que espelha as transições sociais do país, comparando esses jovens com os blocos formados no pós-guerra, na redemocratização e na virada do século. O que se observa na ponta mais jovem da pirâmide é uma inclinação maior à defesa de liberdades individuais e direitos sociais, traço característico do progressismo. Entretanto, esse movimento encontra um limite nítido na relação com o poder público. Diferente de gerações anteriores que viam no governo o motor principal de transformação, os filhos da era digital carregam uma desconfiança latente sobre a eficiência do Estado.
​Felipe Nunes, à frente da Quaest, aponta que essa resistência em delegar ao setor público o papel de solucionador universal de problemas é o que os afasta de uma identificação direta com o espectro canhoto da política. Para esses eleitores, a autonomia e a agilidade do setor privado ou das iniciativas individuais parecem dialogar melhor com a urgência de um mundo conectado. Eles não buscam uma revolução sistêmica, mas sim uma gestão que funcione, sem que isso signifique abrir mão de conquistas no campo dos valores humanos.
​Essa postura híbrida indica que os partidos políticos que insistirem em discursos puristas podem falar para o vazio. A Geração .com ignora as barreiras invisíveis que separam os campos ideológicos para montar o próprio cardápio de crenças. No fim das contas, a identidade política desse novo Brasil é composta por fragmentos: o desejo de inclusão social convive pacificamente com o rigor fiscal e a descrença na burocracia, forçando uma readequação de quem pretende conquistar o voto de quem ainda tem muito chão pela frente.

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