O espetáculo do invisível: onde o lar se torna o front

​Enquanto o debate público se perde em polarizações estéreis, os números da Rede de Observatórios da Segurança confirmam que a maior ameaça à integridade feminina no Brasil não está na rua, mas no "bom dia" dentro de casa.

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O Brasil de 2025 consolidou uma estatística que deveria paralisar o país: a cada duas horas, uma mulher é vítima de violência nos estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança. O aumento de 9% no volume geral de casos em relação ao ano anterior não é apenas um desvio estatístico; é o sintoma de uma sociedade que, embora conectada e moderna, ainda opera sob códigos arcaicos de posse e dominação.

O dado mais corrosivo deste novo levantamento é o salto de 56,6% nos registros de violência sexual. Que o estupro tenha crescido nessa magnitude em apenas um ano revela um abismo entre o discurso institucional de proteção e a realidade brutal das delegacias e hospitais. Mais grave ainda é o perfil das vítimas: mais da metade são meninas que sequer atingiram a maioridade. Estamos falhando na proteção da infância de forma sistêmica.

Diferente da criminalidade urbana convencional, alimentada por dinâmicas de tráfico ou patrimônio, a violência contra a mulher nos nove estados analisados, do Amazonas a São Paulo, possui um rosto conhecido. Em quase 80% das ocorrências, o agressor é o parceiro ou ex-parceiro.

​Essa “violência afetiva” subverte a lógica da segurança pública tradicional. Não se resolve o feminicídio, que somou 546 casos no período, apenas com mais viaturas na rua. O crime acontece no silêncio do ambiente doméstico, sob o pretexto do afeto, o que torna as medidas puramente punitivas um remédio aplicado após o óbito.

Outro ponto do relatório é a “cegueira racial” dos registros. O fato de 86,7% das notificações omitirem a raça ou cor da vítima não é um detalhe burocrático, mas uma estratégia involuntária de invisibilização. Sem saber quem são as mulheres mais vulneráveis, o Estado desenha políticas públicas no escuro, ignorando os recortes de classe e cor que historicamente definem quem sobrevive e quem morre no Brasil.

O jornalismo e as instituições precisam parar de tratar esses números como uma fatalidade meteorológica. O relatório é enfático: o foco precisa migrar da repressão para a desconstrução cultural.

​• Educação de base: A equidade de gênero precisa sair dos manifestos e entrar no currículo escolar.

​• Prevenção estrutural: É necessário romper o ciclo de naturalização do controle masculino antes que ele se converta em agressão física.

​Enquanto a resposta do Estado for reativa, continuaremos a publicar, ano após ano, o inventário de uma tragédia anunciada. A segurança da mulher não é uma pauta setorial; é o termômetro de uma civilização que ainda não aprendeu a conviver com a autonomia do outro.

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