O Oriente Médio atravessa uma de suas reconfigurações mais drásticas, e a Europa, historicamente mediadora, parece ter escolhido um lado definitivo. À exceção da Espanha, as principais capitais europeias consolidaram um apoio, ora logístico, ora retórico, à estratégia de “mudança de regime” em Teerã, capitaneada pelos Estados Unidos e Israel. O movimento marca um ponto de inflexão: a substituição das normas do Conselho de Segurança da ONU por uma lógica de alinhamento pragmático e preventivo diante da atual administração na Casa Branca.
Londres e Berlim lideram essa guinada. O Reino Unido, mantendo sua histórica relação especial com Washington, não apenas se absteve de condenar os bombardeios iniciais contra solo iraniano, como ofereceu suporte logístico crucial a partir de suas bases regionais. Já a Alemanha, sob a gestão de Friedrich Merz, adotou um tom de austeridade diplomática e pragmatismo econômico. Ao visitar Washington em meio à escalada, Merz sinalizou que o apoio à queda do governo persa é acompanhado por uma promessa de auxílio na futura “recuperação econômica” do país, uma postura que críticos e historiadores classificam como uma forma de subserviência estratégica para proteger interesses próprios.
A França de Emmanuel Macron equilibra-se em uma retórica ambígua, mas militarmente ativa. Enquanto reforça seu próprio arsenal nuclear e critica o programa atômico de Teerã, Paris deslocou ativos navais para o Mediterrâneo e o Golfo, integrando o que denomina “operações defensivas”. Na periferia do bloco, o apoio se manifesta em concessões geográficas: Portugal autorizou o uso das bases nos Açores, e a Itália de Giorgia Meloni foca na segurança das monarquias do Golfo, utilizando a pauta dos direitos humanos e da repressão interna no Irã como lastro moral para o distanciamento diplomático de Teerã.
Para analistas como Francisco Carlos Teixeira da Silva, da UFRJ, esse alinhamento em massa esconde uma tentativa desesperada de barganha. A ameaça de Donald Trump de desmantelar a Otan ou mesmo as pressões atípicas sobre territórios como a Groenlândia colocaram a União Europeia em uma posição defensiva. O apoio à guerra contra o Irã seria, portanto, uma moeda de troca para manter a integridade do bloco e a proteção americana frente a outras frentes de instabilidade.
Contudo, a Espanha de Pedro Sánchez emerge como a voz dissonante que impede a narrativa de uma Europa unânime. Ao traçar paralelos com o desastre humanitário e estratégico da Guerra do Iraque, Madri sustenta que a estabilidade global não pode ser alcançada atropelando-se a legalidade internacional. O posicionamento espanhol, embora tenha gerado atritos diretos com a Casa Branca e ameaças de sanções comerciais, resgata o papel da diplomacia multilateral que o restante do continente parece ter colocado em suspensão.
Enquanto a Guarda Revolucionária do Irã responde com o bloqueio simbólico e físico do Estreito de Ormuz, artéria vital para o petróleo global, a Europa observa o enfraquecimento das instituições que ela mesma ajudou a fundar. Ao ignorar as Nações Unidas no processo de decisão bélica, o continente não apenas participa de um conflito geográfico, mas chancela um novo ordenamento mundial onde a força e o alinhamento de ocasião sobrepõem-se aos tratados estabelecidos.





