O mercado imobiliário brasileiro não apenas ignorou as previsões de estagnação diante do crédito caro em 2025, como operou em um patamar de atividade nunca antes visto. O balanço divulgado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) nesta segunda-feira revela um setor em estado de ebulição: foram mais de 453 mil novas unidades lançadas no acumulado do ano, um salto de 10,6% que solidifica a habitação como o grande motor econômico do período. Se o último trimestre de um ano costuma ser de cautela, o fechamento de 2025 foi a antítese do conservadorismo, registrando um incremento de 18,6% nos lançamentos em relação ao período imediatamente anterior.
O motivo dessa expansão reside na reestruturação e no gigantismo do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). O que antes era uma política de nicho tornou-se o eixo gravitacional do setor, respondendo por 52% dos lançamentos e quase metade de todas as vendas realizadas no apagar das luzes de 2025. A consolidação do programa sob o orçamento do FGTS ofereceu a previsibilidade que o mercado de alta renda, ainda pressionado pelas taxas de juros, não conseguiu entregar com a mesma velocidade. Essa “democratização” do lançamento imobiliário explica por que o Valor Geral de Lançamento (VGL) atingiu a cifra astronômica de R$ 292,3 bilhões, estabelecendo um novo teto histórico para o investimento privado em tijolos no país.
Geograficamente, o Sudeste continua a ditar o ritmo da confiança empresarial. A região foi o palco de 15% de todo o crescimento anual, concentrando uma movimentação financeira que ultrapassou os R$ 67 bilhões apenas no último trimestre. Esse movimento sugere que, apesar das assimetrias regionais, os grandes centros urbanos ainda possuem uma demanda represada que transcende a conjuntura macroeconômica. O déficit habitacional, embora um desafio social crônico, atua como um piso de sustentação para a indústria, garantindo que o estoque não fique estagnado mesmo com a oferta final crescendo 6,2%.
A transição para 2026 ocorre sob um otimismo pragmático. A expectativa de que o Banco Central inicie ou aprofunde um ciclo de flexibilização monetária é o combustível que faltava para o segmento de médio e alto padrão, que tende a se beneficiar diretamente da melhora nas condições de financiamento bancário. Com a meta governamental de atingir 3 milhões de unidades contratadas no MCMV até o final do calendário atual, o horizonte aponta para uma manutenção do pleno emprego no setor e uma pressão positiva sobre a cadeia de suprimentos da construção civil.
Para os analistas, o fenômeno de 2025 prova que a “robustez” mencionada pela liderança da CBIC não é apenas retórica de balcão, mas o reflexo de um mercado que aprendeu a operar em ambientes de juros altos através da eficiência operacional e do foco em programas subsidiados. Se as projeções fiscais e econômicas para este ano se confirmarem, o Brasil poderá vivenciar um dos períodos de maior transformação em sua mancha urbana, convertendo o sonho da casa própria em um ativo real de estabilidade para a economia nacional.





