O silêncio que protegeu a infância de Charlotte Goldsztajn Wolosker por décadas finalmente cedeu espaço à palavra. Aos 87 anos, a sobrevivente do Holocausto, radicada no Brasil há quase oito décadas, transforma o trauma em testemunho no livro “La Petite Charlotte: Memórias de Dor, Raízes de Amor”. A obra, escrita por sua filha Sílvia após dois anos de diálogos densos e interrupções necessárias pelo peso das lembranças, joga luz sobre um aspecto muitas vezes obscurecido pela historiografia oficial: a sobrevivência feminina e infantil sob identidades forjadas.
A trajetória de Charlotte começou em um cenário de ruptura absoluta. Aos dois anos, viu o pai ser levado para o campo de Pithiviers, na França, antes de ser enviado a Auschwitz. Sob o comando de uma mãe costureira que circulava clandestinamente por Paris para garantir o sustento, a menina aprendeu cedo que a obediência e o mimetismo eram as únicas ferramentas de preservação. “Você tem que ser boazinha e fazer o que te pedem”, era a frase que ecoava como um mantra de proteção enquanto ela se escondia em colégios de freiras e quartos improvisados, adotando o codinome “Petite”.
O reencontro familiar ocorreu apenas em 1945. O pai, sobrevivente dos campos de concentração, retornou pesando pouco mais de 30 quilos, uma figura tão fragilizada que a própria filha não conseguiu reconhecê-lo de imediato. A reconstrução da vida aconteceu do outro lado do Atlântico. Em 1948, a família desembarcou no Porto de Santos, encontrando no Brasil o refúgio necessário para enterrar, ainda que temporariamente, o horror vivido na Europa.
Hoje, Charlotte integra o restrito grupo de aproximadamente 210 sobreviventes do Holocausto que ainda vivem em solo brasileiro. Suas memórias, agora eternizadas em papel, somam-se ao acervo do Museu Judaico de São Paulo, preservando cartas e documentos que comprovam a resistência humana diante do extermínio. Mais do que um relato biográfico, a história de Wolosker surge como um manifesto contra a intolerância, reforçando a urgência de respeitar a dignidade humana acima de qualquer viés ideológico ou preconceito.





