A computação quântica está prestes a ganhar as suas primeiras coordenadas no hemisfério sul, e elas ficam no Nordeste brasileiro. Até outubro deste ano, a Estação das Artes, em João Pessoa, passará de um espaço cultural a um complexo científico de ponta com a conclusão da montagem do Centro de Computação Quântica da Paraíba (Ciquanta). O projeto pioneiro, que recebeu um aporte inicial de R$ 150 milhões, vai abrigar duas máquinas de alta performance com capacidade de processamento muito superior à dos supercomputadores tradicionais.

A iniciativa coloca o país em um restrito grupo global de desenvolvimento de tecnologias avançadas. Os novos equipamentos operam sob as leis da física quântica, que regem o comportamento de partículas subatômicas. Em vez dos bits tradicionais das máquinas convencionais, os computadores utilizam qubits (bits quânticos), o que permite resolver cálculos complexos em questão de segundos. No Ciquanta, serão instaladas duas unidades: uma de 20 e outra de 100 qubits.

Para receber a estrutura, o prédio histórico passa por modificações arquitetônicas rigorosas. Os computadores exigem um ambiente com blindagem eletromagnética e pé-direito mínimo de seis metros. Além disso, o funcionamento dos chips depende de condições extremas de temperatura. O sistema operará a 10 mili kelvin, o equivalente a cerca de -273°C, uma marca muito próxima do zero absoluto, estabilizada por meio de um circuito fechado que combina os gases hélio-3 e hélio-4, apoiado por geradores de refrigeração redundantes.
Os componentes começam a desembarcar no estado em agosto, importados da China. Para viabilizar a operação, cientistas e técnicos paraibanos viajaram ao país asiático para um treinamento focado na montagem e calibração dos dispositivos. O acordo firmado com a empresa chinesa CETC prevê uma transferência tecnológica completa, abrangendo desde os sistemas operacionais e sensores até a engenharia de criogenia. A meta do governo estadual é que, após a absorção desse ecossistema de inovação pelas equipes locais, as próximas gerações de computadores quânticos possam ser fabricadas diretamente no estado.
A direção científica dos trabalhos ficará a cargo do físico Amir Caldeira, professor da Unicamp e referência na área, que atuará em conjunto com pesquisadores das universidades federais da Paraíba (UFPB) e de Campina Grande (UFCG), além do instituto federal local (IFPB). O foco inicial das pesquisas estará voltado para demandas de alta complexidade, como a criação de novos medicamentos pela simulação de moléculas, otimização de redes logísticas, inteligência artificial e o fortalecimento de sistemas de segurança bancária e criptografia.

O Ciquanta também terá uma função educativa. O projeto prevê uma área de visitação pública com uma réplica das máquinas em tamanho real, com o objetivo de aproximar a comunidade da ciência e demonstrar os impactos práticos dessa transição tecnológica no cotidiano. O polo planeja atrair novas empresas de tecnologia e reter talentos locais, consolidando a região como um polo de pesquisa científica avançada.





