O xarope que ensinou o mundo a arrotar felicidade

​De remédio para enxaqueca a combustível da cultura pop, a poção de John Pemberton completa 140 anos de uma hegemonia movida a marketing e açúcar

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​Há exatos 140 anos, na Jacob’s Pharmacy em Atlanta, o farmacêutico John Pemberton servia o primeiro copo daquela mistura escura que prometia aliviar dores de cabeça e a melancolia da vida moderna. Naquele 8 de maio de 1886, a receita ainda ostentava o frescor, hoje proibitivo, da folha de coca, ingrediente que a medicina da época tratava com a mesma naturalidade que hoje dedicamos a um chá de camomila. Pemberton, contudo, não era exatamente um gênio das finanças: com uma média de nove copos vendidos por dia em seu ano de estreia, o balanço final foi um prejuízo digno de quem troca ouro por vidro.

A trajetória do tônico medicinal para o topo das prateleiras globais é um estudo de caso sobre como a percepção humana é maleável. O que começou como um xarope para acalmar os nervos de veteranos de guerra transformou-se em um símbolo de estilo de vida, exportando o conceito de alegria líquida para cada fuso horário do planeta. Se no século XIX a promessa era a cura fisiológica, no século XXI a narrativa foca em uma satisfação abstrata, embalada em bilhões de dólares de publicidade que sugerem, com uma sutileza quase religiosa, que um churrasco de domingo só é legítimo se houver o estalo de uma tampa de metal ao fundo.

O sarcasmo da história reside no fato de que, enquanto o criador mal conseguia pagar o aluguel da farmácia, seus sucessores construíram um império que dita padrões de consumo e até a cor da roupa do Papai Noel. A Coca-Cola deixou de ser um produto farmacêutico para se tornar uma espécie de ritual social obrigatório. Hoje, observamos o fenômeno de uma marca que convenceu a humanidade de que o auge do bem-estar consiste em um copo de vidro suado, fatias de limão e uma quantidade de gelo capaz de resfriar o Atlântico. Pemberton pode ter morrido sem ver a cor do dinheiro, mas legou ao mundo a prova definitiva de que, com o marketing certo, até um tônico deficitário pode virar a identidade visual da civilização contemporânea.

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