O silêncio que ecoa há oito décadas: Hiroshima homenageia vítimas no 81º aniversário do ataque atômico

​Com o envelhecimento dos últimos sobreviventes, cerimônia no Parque Memorial da Paz renova os apelos globais pelo fim do armamento nuclear

Compartilhe o Post

​Às 8h15 desta quinta-feira, 6 de agosto, a cidade de Hiroshima voltou a parar para um minuto de silêncio rigoroso. O gesto marca o instante exato em que, em 1945, o bombardeiro norte-americano Enola Gay soltou a bomba Little Boy sobre a região. O impacto matou cerca de 140 mil pessoas até o fim daquele ano e mudou para sempre os rumos dos conflitos internacionais.

 

O problema de lembrar Hiroshima e Nagasaki todo dia 6 de agosto não é a homenagem às vítimas, isso é dever humano básico. A hipocrisia é o teatro diplomático que se monta em torno da data.

Ano após ano, líderes das maiores potências bélicas do planeta viajam até o Japão, fazem carinha de pesar, soltam pombas brancas no Parque Memorial da Paz e assinam declarações bonitinhas sobre “um mundo livre de armas nucleares”. Depois, pegam o avião de volta para casa e aprovam orçamentos bilionários para modernizar seus próprios arsenais atômicos. É uma encenação grotesca.

 

A verdade desconfortável que o jornalismo morno prefere diluir é simples: a tragédia de 1945 não serviu de lição moral para a humanidade; serviu de manual de intimidação. A bomba atômica inaugurou a era em que ter o poder de incinerar centenas de milhares de civis num piscar de olhos virou o maior ativo geopolítico de uma nação.

Enquanto os últimos hibakusha, velhos de mais de 80 anos que carregam na pele e no sangue o horror do bombardeio, vão morrendo, a diplomacia internacional finge que escuta seus apelos. A realidade é que o mundo hoje está mais perto de um colapso nuclear do que esteve em décadas, impulsionado por guerras por procuração, retórica belicista de líderes autoritários e a absoluta ineficiência de órgãos como a ONU, que viraram meros clubes de debate sem poder prático de desarme.

 

Chorar por Hiroshima em agosto é fácil e barato. Difícil é admitir que a geopolítica global continua refém da mesma lógica brutal que autorizou o lançamento da Little Boy: a de que a vida humana é um dano colateral aceitável na disputa pelo poder absoluto.

Compartilhe o Post

Mais do Nordeste On.