O silêncio nos dados: a lacuna que mascara o avanço do câncer de pele no Brasil

​Falta de indicadores sobre raça e escolaridade nos registros oficiais dificulta políticas de prevenção para a doença que mais atinge brasileiros

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​O combate ao câncer de pele no Brasil enfrenta um adversário invisível que vai além da radiação ultravioleta: a precariedade das notificações. Um levantamento recente da Fundação do Câncer revela que os bancos de dados públicos, fundamentais para nortear estratégias de saúde, sofrem de um apagão informativo. Em 2023, o país contabilizou 5.588 óbitos pela doença, mas a ausência de perfis detalhados sobre quem são essas vítimas impede que o Estado atue com precisão onde o risco é maior.

​A análise dos registros hospitalares e de mortalidade expõe falhas sistêmicas no preenchimento de prontuários. Mais de um terço dos casos notificados não apresenta a cor da pele do paciente, enquanto a escolaridade é omitida em 26% das ocorrências. No Sudeste, o cenário é ainda mais crítico, com quase 70% de invisibilidade racial nos diagnósticos de melanoma, o tipo mais agressivo da doença. Sem esses marcadores, a epidemiologia brasileira perde a capacidade de medir como a desigualdade social e o racismo estrutural influenciam o tempo de diagnóstico e as chances de cura.

​O epidemiologista Alfredo Scaff, coordenador do estudo, observa que a falta de dados compromete a prevenção em um território onde a incidência solar é severa durante todo o ano. A carência de informações sobre instrução formal, por exemplo, atinge seu ápice no Centro-Oeste, onde cerca de 74% dos registros de tumores não melanoma ignoram o nível educacional do paciente. Esse vácuo impede a compreensão sobre o impacto da exposição ocupacional, especialmente em setores motores da economia regional, como o agronegócio.

​Embora o imaginário popular associe a proteção solar apenas ao lazer e às praias, o perigo real recai sobre quem faz da exposição ao sol sua rotina de trabalho. Policiais, garis, operários da construção civil e agricultores compõem a linha de frente do risco. Para esses profissionais, o filtro solar é apenas uma parte da engrenagem de defesa, que deveria ser complementada por equipamentos de proteção individual específicos, como vestimentas adequadas e acessórios com bloqueio UV. O estudo reforça que a exposição crônica, comum nessas atividades, é o principal gatilho para os carcinomas basocelular e espinocelular.

​As projeções do Instituto Nacional do Câncer para o triênio 2026-2028 são alarmantes, estimando mais de 270 mil novos casos anuais. A região Sul desponta com as maiores taxas de mortalidade por melanoma, especialmente entre a população masculina. A Fundação do Câncer reitera que, embora a pele clara e o histórico familiar sejam fatores biológicos determinantes, o controle da doença no Brasil exige uma gestão de dados mais rigorosa. Corrigir o fluxo de informações nos hospitais é o primeiro passo para que o sistema de saúde pare de trabalhar no escuro diante de uma patologia que se esconde sob a luz do sol.

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