A paisagem urbana brasileira está prestes a perder um de seus contornos mais familiares. Até o final de 2028, os últimos 30 mil orelhões, as icônicas cúpulas concebidas pela arquiteta Chu Ming Silveira em 1972, serão definitivamente desconectados. O que antes era uma exigência contratual rígida de universalização do acesso à voz, agora se converte em moeda de troca para o que realmente move a economia contemporânea: a banda larga de alta velocidade.
O encerramento deste ciclo coincide com a exaustão do modelo de concessões firmado em 1998. Naquela época, o acesso à telefonia fixa era o ápice da inclusão digital; hoje, os terminais de uso público (TUPs) tornaram-se vestígios de uma tecnologia analógica em um mundo dominado pelo 5G. A transição do regime de concessão para o de autorização, negociada entre a Anatel e as operadoras, permite que o capital antes imobilizado na manutenção de aparelhos obsoletos e frequentemente vandalizados seja redirecionado para a expansão de redes de fibra óptica e datacenters.

A estratégia de retirada é cirúrgica. Para evitar apagões de comunicação em zonas de sombra tecnológica, a agência reguladora impôs uma salvaguarda: cerca de 9 mil telefones continuarão operantes em localidades onde o sinal 4G ainda não é uma realidade. Esse contingente residual funciona como uma rede de segurança social, garantindo que o isolamento geográfico não se transforme em isolamento comunicacional absoluto.
A negociação para essa “aposentadoria” não foi isenta de turbulências. O cenário de fragilidade financeira de grandes players, como a Oi, adicionou camadas de complexidade jurídica ao processo. Contudo, o acordo firmado projeta um horizonte onde a contrapartida das empresas deixa de ser o hardware exposto na calçada e passa a ser a infraestrutura invisível. O compromisso inclui a instalação de cabos submarinos, conectividade em escolas públicas e a cobertura móvel em municípios que ainda vivem à margem da grande rede.

Enquanto estados como São Paulo ainda concentram o maior volume desses aparelhos, o movimento de desmontagem simboliza uma mudança de paradigma no serviço público. O orelhão, que já foi o único elo de milhões de brasileiros com o restante do mundo, despede-se para dar lugar a uma conectividade que não ocupa espaço nas calçadas, mas que pretende ser onipresente na vida digital do país.





