O silêncio do conselheiro: Robert Duvall e a arte da sublimação literária no cinema

​Da sobriedade de Tom Hagen ao declínio lírico em "A Força do Carinho", morre aos 95 anos o ator que transformou o papel coadjuvante na espinha dorsal de Hollywood

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O cinema costuma ser generoso com os histriônicos, mas Robert Duvall, que nos deixou nesta segunda-feira (16), aos 95 anos, pertencia a uma linhagem diferente. Ele era o mestre da economia dramática. Sua morte, confirmada por sua esposa Luciana, encerra um capítulo de sete décadas em que a tela não era usada para o brilho pessoal, mas para a construção minuciosa da verossimilhança. Duvall faleceu em sua residência, de forma serena, poupando o público do espetáculo da decadência, tal como conduzia suas interpretações.

 

Sua trajetória desafiou a hierarquia das estrelas. Enquanto seus contemporâneos buscavam o centro do holofote, Duvall especializou-se em ser o equilíbrio das grandes obras. Em O Poderoso Chefão, ele deu a Tom Hagen uma lealdade gélida e burocrática, servindo de contraponto racional ao vulcão emocional dos Corleone. A ausência de seu personagem no fechamento da trilogia de Francis Ford Coppola  motivada por uma pragmática disputa salarial, deixou um vácuo que o filme jamais conseguiu preencher, provando que ele era, muitas vezes, o centro de gravidade oculto das cenas.

A consagração absoluta pela Academia veio em 1983, com A Força do Carinho. No papel de um cantor country em busca de redenção contra o alcoolismo, Duvall abandonou as notas rígidas de seus personagens militares e jurídicos para entregar uma vulnerabilidade rústica. Foi ali que o mundo entendeu sua versatilidade: o homem que conseguia proferir frases icônicas sobre o cheiro do napalm em Apocalypse Now era o mesmo capaz de expressar a melancolia silenciosa de um Texas esquecido.

A longevidade de sua carreira não foi fruto do acaso, mas de um rigor técnico que começou nos palcos dos anos 1950 e atravessou a Nova Hollywood de George Lucas até chegar ao streaming contemporâneo. Sua última aparição, em O Pálido Olho Azul (2022), foi o ponto final de uma filmografia que inclui clássicos como Rede de Intrigas e A Conversação. Duvall não apenas viveu o cinema; ele ajudou a definir a gramática da atuação moderna, onde o que não é dito carrega mais peso do que o roteiro. Com sua partida, Hollywood perde o seu mais confiável conselheiro.

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