O império de sangue e algodão no Nordeste

​Casarões históricos ocultam o rastro de violência e a expropriação de terras indígenas e quilombolas pela dinastia Lundgren

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​No início do século XX, a imponência arquitetônica que se erguia em Paulista, no litoral de Pernambuco, projetava a imagem de um Nordeste moderno e industrializado. Sob o comando do patriarca sueco Herman Lundgren, a chamada “cidade-fábrica” consolidou-se como um modelo de controle social absoluto. Naquele território, a iniciativa privada não geria apenas a produção têxtil, mas também a vida cotidiana: a empresa era proprietária do solo, dos maquinários, dos templos religiosos, das escolas e das moradias. Questionar o monopólio patronal significava a expulsão sumária ou castigos severos.

Essa mesma estrutura de dominação foi herdada e ampliada por seus sucessores, os irmãos Arthur e Frederico Lundgren, que avançaram sobre o território paraibano, alcançando o Vale do Mamanguape e as terras do Conde.

O avanço da monocultura sobre territórios tradicionais

Por trás dos muros das propriedades e da expansão da Companhia de Tecidos, existia um cenário de disputa violenta por terras que já tinham donos. No Conde, a investida industrial ignorou a presença histórica do povo indígena Tabajara e das comunidades quilombolas de Gurugi, Mituaçu e Ipiranga.

A substituição da vegetação nativa e das plantações de subsistência pela monocultura do algodão e da cana-de-açúcar deu-se de forma impositiva, alterando drasticamente o ecossistema e o modo de vida local.

​A milícia armada e o silêncio imposto nas matas

A implantação do projeto agrícola e industrial na Paraíba utilizou métodos coercitivos que ficaram marcados na memória oral dos sobreviventes. Relatos de moradores antigos descrevem o uso sistemático de capangas e milícias privadas contratadas pela empresa para cercar nascentes, desmatar áreas sagradas e sufocar a resistência comunitária.

A restrição ao acesso a recursos fundamentais transformou tarefas cotidianas em atividades de alto risco. Ir em busca de lenha para o fogão ou coletar água em fontes tradicionais, agora declaradas propriedade privada “da Companhia”, passou a ser punido com ameaças físicas e violência armada. Lideranças locais que se recusavam a ceder às pressões sofriam com o isolamento e o assédio constante das forças privadas de segurança. O legado dessa época permanece vivo na memória das comunidades, revelando a face oculta do desenvolvimento industrial que marcou as divisas entre Pernambuco e Paraíba.

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