O deserto do real e a linha que o homem traçou: a saga da Reta de Ibimirim (PE)

​Entre o descaso estatal e o vácuo do sertão, a BR-110/316 sobrevive como uma cicatriz de poeira que se recusa a sumir do mapa pernambucano.

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No coração do Sertão do Moxotó, onde o horizonte costuma brincar de esconde-esconde com a miragem, existe uma linha reta tão absoluta que faria Euclides chorar de inveja. A Reta de Ibimirim não é apenas uma rodovia; é um monumento à teimosia humana e, simultaneamente, um diário aberto da ineficiência administrativa brasileira. Nascida nos anos 40 pelas mãos da antiga Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS), a via surgiu com a promessa de conectar o nada ao lugar nenhum, mas acabou virando o cordão umbilical de uma produção agrícola que teima em brotar onde a chuva é artigo de luxo.

O traçado original, que orgulhosamente ostentava 94 quilômetros de tédio geográfico, sofreu uma “lipoaspiração” forçada com a construção da barragem de Itaparica. A velha Petrolândia afundou, a nova recuou, e a reta minguou para 70 quilômetros. Reduziram a distância, mas mantiveram o DNA de terra batida que desafia a lógica das grandes integrações nacionais. Na década de 70, a rodovia era o playground de engenheiros recém-formados do extinto DNER, que comandavam exércitos de máquinas e homens em uma luta inglória contra o desgaste natural. Era a era de ouro do funcionalismo público de campo: havia gente, havia graxa e havia propósito.

 

Contudo, o Brasil tem uma habilidade peculiar de transformar patrimônio em sucata. Com o passar das décadas, o que era uma “equipe briosa” tornou-se um retiro de fantasmas. As máquinas apodreceram nos pátios, os servidores se aposentaram (ou partiram para o grande canteiro de obras no céu) e a reposição de pessoal tornou-se uma lenda urbana contada nos corredores de Brasília. A Reta de Ibimirim foi deixada à deriva, sobrevivendo de “puxadinhos” administrativos e da caridade de prefeituras locais que, entre um aperto de mão e outro, tentavam manter o caminho minimamente passável para quem precisa levar o pão para casa ou escoar a safra para o Sul.

A ironia final do destino veio em 2010. Após anos de abandono que fariam qualquer entusiasta de Mad Max se sentir em casa, o DNIT resolveu que era hora de redescobrir o Sertão. O movimento mais recente nessa peça de xadrez burocrática foi entregar a manutenção ao Exército Brasileiro. Sim, em um país onde a engenharia civil pública parece ter tirado férias permanentes, chamam-se os fardados para garantir que o caminhoneiro não desapareça em um buraco rumo a Itaparica.

A Reta de Ibimirim permanece lá: um traço de régua num mundo quase sem curvas, lembrando-nos de que, no sertão, o tempo é implacável, a poeira é eterna e a burocracia é o único obstáculo que nenhuma patrola consegue nivelar.

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