O calcanhar de Aquiles do mercado da arte: um esboço de pé que vale uma frota de jatinhos

​Michelangelo prova que, 500 anos depois, até seus "rabiscos" de anatomia básica conseguem humilhar o PIB de pequenas nações em leilões nova-iorquinos.

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O mercado de arte global acaba de confirmar o que todos suspeitávamos: o fetiche por pés atingiu um novo patamar de sofisticação financeira. Um esboço de pé, recém-saído do anonimato de uma coleção privada, foi arrematado na Christie’s de Nova York pela bagatela de US$ 27,2 milhões. O desenho, que serviu de base para a Sibila Líbica no teto da Capela Sistina, prova que Michelangelo Buonarroti não precisava de muito mais do que um giz vermelho e um papel amarelado para criar uma nota promissória eterna.

A peça, descrita por especialistas com aquele entusiasmo quase místico que só o mercado de luxo permite, foi vendida por quase vinte vezes o seu valor estimado inicial. O que começou como uma simples consulta por foto enviada por um proprietário sortudo, que herdou o “papelzinho” do avô, possivelmente o melhor herdeiro da história recente, transformou-se em uma guerra de lances de 45 minutos. É fascinante observar como a elite global se engalfinha para possuir a representação de uma extremidade humana que, no mundo real, mal recebe atenção além de uma boa pedicure.

A autenticação, claro, exigiu todo o aparato tecnológico digno de uma investigação do CSI. Através de reflectografia infravermelha, descobriu-se que o verso da folha escondia outros traços do mestre renascentista, selando o destino milionário do lote. Giada Damen, a especialista da Christie’s que validou a obra, afirmou que é possível sentir a “energia física” com que o mestre pressionou o giz no papel. De fato, a energia é tão palpável que conseguiu transferir US$ 27,2 milhões de uma conta bancária para outra em menos de uma hora, um tipo de física quântica que apenas os bilionários dominam.

Um homem nu visto por trás, estudo para a Batalha de Cascina, de Michelangelo (1475-1564)

 

O recorde anterior de Michelangelo, um desenho de um homem nu que custou US$ 24,3 milhões em Paris, agora parece uma pechincha de brechó perto deste pé. Enquanto o cidadão comum luta para entender como um rascunho de 1511 sobreviveu ao tempo sem virar comida de traça ou ser descartado em uma limpeza de sótão, os magnatas da arte celebram a imortalidade da anatomia. No fim das contas, a lição que fica é clara: se você for um gênio do Renascimento, até o seu calcanhar vale mais do que a vida inteira de trabalho de dez gerações de mortais.

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