Uma intervenção médica desenhada para devolver a autonomia a pacientes idosos transformou-se em um pesadelo sanitário no coração da Bahia. A 1ª Vara das Garantias de Salvador determinou o afastamento imediato de três médicos que lideraram um mutirão de cirurgias de catarata no início deste ano. A medida cautelar atende a um pedido da Polícia Civil, que tenta preservar provas de uma sequência de erros que resultou na mutilação de pelo menos 11 pessoas.
O caso ocorreu no dia 26 de fevereiro, nas instalações da clínica Clivan, prestadora de serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). Das dezenas de idosos que passaram pelo centro cirúrgico naquele dia, o foco do desastre concentrou-se em uma única sala. Dos 26 pacientes operados nesse ambiente específico, 25 desenvolveram infecções e complicações severas nas horas seguintes. Para 11 deles, a gravidade do quadro exigiu a evisceração ocular, um procedimento cirúrgico radical que consiste na remoção completa do conteúdo interno do globo do olho.
A Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso (DEATI) já contabiliza 33 denúncias formais de lesão corporal culposa. Os investigadores também apuram os crimes de perigo para a vida ou saúde de outrem e infração de medida sanitária preventiva. O volume de ocorrências sugere uma quebra sistêmica nos protocolos de assepsia e controle de infecção hospitalar.
Durante a operação de busca e apreensão, a polícia recolheu o histórico físico e digital da clínica. Entre os materiais enviados ao Departamento de Polícia Técnica (DPT), destacam-se os livros de registro de esterilização do Centro de Material e Esterilização (CME), além de computadores, prontuários e notas fiscais. O confronto desses documentos deve apontar se houve negligência no manejo dos equipamentos ou uso de insumos contaminados.
Desde os primeiros relatos de perda irreversível da visão por parte dos pacientes, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) interditou a Clivan e suspendeu todos os contratos vigentes com o município. Enquanto a perícia técnica avança sobre os computadores e livros de registros apreendidos, os idosos sobreviventes tentam se adaptar à perda súbita da visão, assistidos agora por uma rede de emergência montada pelo município para conter os danos de um mutirão que falhou em sua premissa mais básica: curar.





