Do calçado ao magnésio: como a Transnordestina está redesenhando o futuro industrial do Sertão Central

​Quixeramobim atrai fábrica global inédita de peças automotivas e bilionário porto seco, projetando dobrar seu PIB nos próximos dez anos

Compartilhe o Post

​Historicamente reconhecido pela força de suas bacias leiteiras e pela consolidação de seu polo calçadista, o município de Quixeramobim, no Sertão Central do Ceará, passa por uma guinada estrutural que promete reconfigurar sua identidade econômica. A iminente chegada da Ferrovia Transnordestina, prevista para alcançar a cidade ainda este ano, disparou uma corrida de investimentos estruturantes que ligam o semiárido cearense diretamente às cadeias globais de suprimentos.

​O marco mais recente dessa transição ocorreu nesta quinta-feira (14), com a assinatura do termo de compromisso entre a prefeitura local e a Magnésio do Nordeste LTDA. O acordo prevê a instalação de uma unidade industrial de transformação de magnésio polímero focada na produção de autopeças de alta tecnologia. Capitaneado pelo empresário português Antônio Pinheiro Teixeira e financiado por um pool de investidores norte-americanos e europeus, o projeto receberá um aporte de R$ 370 milhões.

​A planta industrial ocupará uma área de 18 hectares próxima ao Parque de Exposição e tem as obras programadas para começar em julho, sob a condução do Grupo Avelino Engenharia Industrial. Mais do que um acréscimo estatístico ao PIB municipal de R$ 1,4 bilhão, o empreendimento carrega o pioneirismo de ser a primeira fábrica do mundo a adotar este modelo tecnológico específico para o setor automotivo, conforme dados da Agência de Desenvolvimento do Sertão Central Cearense (ADESCC). A unidade fabricará chassis e rodas para montadoras de carros e motocicletas no Brasil, substituindo componentes que atualmente dependem 100% de importação.

​Diferente da atividade extrativista tradicional, o processo não envolve mineração local. A operação consiste na transformação industrial de um composto que alia o magnésio a polímeros de alta performance. O resultado é a fabricação de peças estruturais que reduzem o peso dos veículos em até 30% quando comparadas às alternativas de alumínio, métrica chancelada pela Rima Industrial, única produtora de magnésio primário do Hemisfério Sul.

​Essa movimentação industrial está diretamente atrelada à logística da Transnordestina, cujos trilhos conectam Eliseu Martins, no Piauí, ao Porto do Pecém, estendendo-se por 1.206 quilômetros. Paralelamente à ferrovia, a Value Global Group avança na construção do Porto Seco José Dias de Macêdo. O terminal multimodal, que envolve um montante de R$ 1 bilhão em duas fases, ocupará mais de 362 hectares e deve iniciar as operações em agosto. A Transnordestina Logística já assegurou o contrato para ativar as linhas de viagem dentro do terminal, aguardando apenas as etapas finais do licenciamento ambiental junto à secretaria competente.

​O plano de expansão liderado pelo prefeito Cirilo Pimenta prevê ainda a criação de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE) e negociações para atrair uma montadora de motocicletas atraída por incentivos fiscais. O objetivo da administração pública é ousado: dobrar o tamanho da economia local até 2035, integrando os novos negócios aos setores tradicionais que já exportam ração e calçados.

​A escolha de Quixeramobim como destino do capital internacional foi resultado de uma disputa de bastidores que durou dois anos. De acordo com o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Afrânio Feitosa, o município superou a concorrência de uma cidade cearense de grande porte e forte apelo político ao demonstrar viabilidade técnica, localização estratégica e estabilidade institucional.

​A chegada da nova indústria também mexe com o mercado de trabalho e o urbanismo. O cronograma prevê a abertura gradual de 450 empregos diretos até 2030, operando em três turnos. A Magnésio do Nordeste garantiu contratualmente que 80% dessas vagas serão preenchidas por profissionais da região, superando a cota de 70% fixada pela legislação municipal. O desenho da fábrica inclui contrapartidas sociais, como uma creche em tempo integral, restaurante e uma área verde integrada à malha urbana para uso da população.

​A operação é sustentada por uma rede de apoio técnico e corporativo. O Grupo Avelino, responsável pelas obras e com doze anos de atuação no município, anunciou a transferência de sua matriz de Maracanaú para Quixeramobim, com planos de atrair novos parceiros comerciais. A engenharia jurídica e tributária do negócio fica a cargo do escritório Novais e Cavalcante Advogados, especializado em comércio exterior, enquanto a intermediação do investimento foi conduzida pela Attra Assessoria, focada na interiorização do desenvolvimento econômico do estado.

Compartilhe o Post

Mais do Nordeste On.