Conheça o novo paradigma da prova de vida no INSS

​Entre o cruzamento de dados e o abismo tecnológico, milhões de aposentados navegam por um sistema que automatizou a existência, mas ainda tropeça na comunicação.

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A manutenção de quase 41 milhões de benefícios previdenciários no Brasil deixou de ser uma tarefa de balcão para se tornar um complexo algoritmo de vigilância estatal. O que antes exigia a presença física do segurado diante de um caixa bancário agora opera sob a lógica do “rastro digital”. Desde 2023, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) inverteu o ônus da prova: não é mais o cidadão quem deve gritar ao Estado que está vivo; é o Estado que deve caçar sinais de vida em seus bancos de dados.

O impacto dessa engrenagem é monumental. Com uma injeção mensal de R$ 47,4 bilhões na economia, dos quais uma fatia expressiva sustenta o consumo no Rio de Janeiro, por exemplo, com seus 1,8 milhão de beneficiários, qualquer ruído nesse sistema de verificação pode paralisar economias locais e trajetórias individuais. A prova de vida agora é um mosaico composto por fragmentos do cotidiano: uma renovação de CNH, um voto depositado na urna, uma atualização no CadÚnico ou até a emissão de um novo RG. Se o segurado interage com o poder público, ele recebe, tacitamente, o selo de existência.

Contudo, a modernização traz consigo uma armadilha silenciosa: a exclusão digital. Para os benefícios de longa duração, como as aposentadorias e pensões que superam um ano, a automação é uma promessa de conforto que nem sempre se cumpre. Especialistas apontam que a transição para o modelo de cruzamento de dados criou uma “zona cinzenta” informativa. Quando o algoritmo falha em encontrar o rastro do segurado, a notificação para a comprovação ativa chega muitas vezes como um susto, exigindo uma literacia digital que nem todo idoso possui.

A crítica reside na distância entre a norma jurídica e a realidade social. Enquanto o discurso oficial celebra a eficiência tecnológica, uma parcela significativa da população permanece refém da dependência de terceiros para gerir aplicativos e senhas. Essa vulnerabilidade abre brechas para erros administrativos e, no pior dos cenários, fraudes. O desafio da Previdência Social para os próximos anos não é apenas refinar seus bancos de dados, mas garantir que a “morte civil” de um benefício não ocorra simplesmente porque um cidadão optou por viver fora das telas.

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