Brasileiros estão ocupados, mas sem dinheiro

​Com 30% da renda comprometida por dívidas, sobra para o consumo atinge o pior patamar em 15 anos e ameaça o crescimento do setor de serviços

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A vitrine reflete um movimento que o bolso já não consegue acompanhar. O cenário econômico atual apresenta uma contradição estatística: enquanto a taxa de desocupação recua para 5,8%, a sensação de prosperidade desaparece nos extratos bancários. A renda disponível para o consumo discricionário, aquela fatia que sobra após a quitação de impostos, moradia e alimentação, encolheu para 21%, marcando o nível mais baixo desde 2011. Essa retração não é apenas um detalhe contábil; ela representa bilhões de reais que deixam de circular em áreas como turismo, lazer e varejo de moda, setores fundamentais para a sustentação do Produto Interno Bruto.

​O principal obstáculo para o bem-estar financeiro das famílias atende pelo nome de serviço da dívida. Atualmente, o endividamento alcança a marca histórica de 49,9%, o que significa que quase metade dos lares brasileiros possui algum tipo de pendência financeira. O custo desse passivo é potencializado por uma taxa Selic estacionada em 14,75%. Esse patamar de juros transforma o crédito em um artigo proibitivo, forçando o consumidor a recorrer a modalidades emergenciais, como o rotativo do cartão de crédito ou o cheque especial, cujas taxas reais aniquilam qualquer ganho salarial obtido em negociações coletivas.

​A percepção de sufoco financeiro é validada pela realidade das ruas. De acordo com dados recentes do Datafolha, quase 60% da população afirma que o salário atual é incapaz de cobrir as despesas básicas de sobrevivência. Esse déficit orçamentário tem impulsionado um fenômeno de “pluriatividade”, onde 45% dos brasileiros buscam fontes alternativas de rendimento para fechar as contas. O trabalho extra, que antes poderia significar um incremento para o consumo, tornou-se um mecanismo de sobrevivência para manter em dia o pagamento de energia e alimentação.

​Essa conjuntura desenha um cenário de estagnação para o comércio e o setor de serviços. Embora o mercado de trabalho apresente uma oferta robusta de vagas, o poder de compra está sendo drenado pelo custo de vida e pela seletividade do setor bancário, que restringiu a oferta de crédito devido ao risco de inadimplência. Sem uma folga financeira que permita ao cidadão gastar além do essencial, a economia corre o risco de entrar em um ciclo de baixa atividade, onde a baixa taxa de desemprego não se traduz necessariamente em desenvolvimento econômico real.

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