A festa é nossa (?), a conta também: deputados aprovam o manual do autoajuste partidário

​Em votação relâmpago, excelências transformam o rigor fiscal das siglas em uma eterna e generosa colônia de férias com o dinheiro público.

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​Enquanto o cidadão comum sua a camisa para tentar entender as linhas miúdas do próprio extrato bancário, sob o risco real de ter o nome enviado ao SPC por causa de uma fatura esquecida, a Câmara dos Deputados acaba de demonstrar que o universo das finanças públicas obedece a leis gravitacionais próprias. Em uma demonstração de pura sensibilidade com o próprio bolso, os parlamentares aprovaram um pacote de bondades que eleva a contabilidade partidária ao status de obra de ficção de vanguarda.

​A partir de agora, o rigor na prestação de contas passa a ser tratado como uma mera formalidade do passado, um capricho burocrático que não deve atrapalhar o livre fluxo da criatividade contábil. Gastos que a Justiça Eleitoral insistia em carimbar como irregulares ganharam uma espécie de salvo-conduto retroativo, uma mágica legislativa capaz de transformar o erro de ontem na normalidade de amanhã. Afinal, errar é humano, mas anistiar o próprio erro é estritamente parlamentar.

​Para as multas que porventura escaparem desse filtro de benevolência, a solução encontrada foi de uma generosidade comovente: um parcelamento em até 15 anos. Na prática, uma infração cometida hoje poderá ser quitada pelas próximas quatro gerações de dirigentes. É o único consórcio do mundo onde o devedor escolhe o tamanho da parcela e o prazo se estende até perder de vista, sem que ninguém precise passar pelo constrangimento de ter os bens penhorados.

​No pacote de modernização das agremiações, sobrou espaço também para o desapego trabalhista. A nova regra permite remunerar a cúpula das siglas sem a chatice de vínculos formais. É o cooperativismo político levado às últimas consequências, onde o topo da pirâmide usufrui das benesses do capital sem o incômodo das obrigações do trabalho.

​Para coroar o espetáculo de eficiência, o texto ainda abriu uma generosa janela para o disparo em massa de mensagens automatizadas. Em tempos de hiperconectividade, nada mais justo do que garantir que o eleitor receba um volume industrial de saudações partidárias diretamente no celular, sem os filtros irritantes que costumam barrar o cidadão comum. Se a população já reclamava do excesso de notificações no cotidiano, agora terá a certeza de que o spam oficializado tem o selo de garantia do Congresso. Uma reforma feita sob medida para quem acredita que o melhor jeito de gerir o interesse público é manter os privilégios privados bem protegidos.

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