O que separa a rotina urbana do isolamento completo em uma área de mata fechada são, às vezes, menos de trinta passos. Foi essa a distância que o adestrador e servidor penal Roberto Dantas Conceição, de 60 anos, percorreu antes de perder o ponto de retorno na zona rural de Itabuna, no sul da Bahia. O que se seguiu foram 96 horas de buscas, incertezas e uma combinação de instinto de sobrevivência e observação da própria natureza que permitiu ao funcionário público reencontrar a família.
Roberto havia saído de casa no último domingo para buscar água na propriedade rural dos familiares quando ultrapassou uma cerca danificada. Ao tentar retornar após seguir um animal da fazenda, a vegetação fechada apagou suas referências visuais. Sem comunicação e impossibilitado de guiar sua motocicleta, que acabou abandonada na região e serviu como ponto de partida para as equipes de resgate, ele iniciou uma caminhada que só terminaria a pouco mais de 21 quilômetros dali, no município vizinho de Buerarema.
Durante o período em que esteve desaparecido, a sobrevivência dependeu de decisões rápidas e de um olhar atento ao comportamento animal, uma habilidade que Roberto desenvolveu ao longo de anos de trabalho no canil do Conjunto Penal de Itabuna. Ao deparar-se com um riacho de água imprópria para o consumo, o servidor decidiu não arriscar. Mais adiante, ao observar um pássaro banhando-se em uma poça de lama, interpretou o gesto da ave como um sinal verde. Bebeu daquela água e, para mitigar a fome, alimentou-se de frutos de cacau encontrados pelo caminho.
O isolamento também trouxe momentos de tensão provocados pela proximidade com cães de grande porte na região. O adestrador relatou ter ouvido latidos e percebido a aproximação de um cão que identificou como sendo da raça Rottweiler. O temor de um ataque deu lugar ao alívio quando o animal recuou, permitindo que ele seguisse o som dos latidos como uma espécie de guia sonoro em direção à civilização.
A jornada terminou na margem de um trecho movimentado da rodovia BR-101. Bastante debilitado e apresentando sinais de desorientação, mas sem ferimentos graves aparentes, Roberto conseguiu acionar a sirene do portão de uma fazenda local. Socorrido por funcionários da propriedade, ele recebeu os primeiros atendimentos e pôde, finalmente, reencontrar os filhos e os órgãos de segurança pública que coordenavam a força-tarefa de buscas desde a segunda-feira.
A mobilização envolveu homens do Corpo de Bombeiros, policiais militares e a Polícia Civil baiana, que investigava o sumiço por meio da delegacia de Itabuna. Após o resgate, o servidor foi conduzido a uma unidade de saúde em Buerarema para avaliação médica detalhada. Superado o susto, Roberto se prepara para retomar suas atividades no Centro de Ressocialização de Itabuna, onde hoje atua capacitando internos em cursos profissionalizantes.





