Cinqüentona e sem neoprene: A conquista inédita que colocou uma estreante no Guinness

Aos 56 anos, Clarice Hashizume supera asma, mar aberto e a barreira da idade para registrar o recorde mundial feminino na Travessia do Leme ao Pontal.

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O relógio marcava meia-noite e vinte e cinco minutos quando Clarice Shiguemi Hashizume entrou no mar da Praia do Leme, no Rio de Janeiro. Naquele momento, as estatísticas jogavam contra ela. Aos 56 anos e 280 dias, ela nunca havia nadado uma ultramaratona aquática de tamanha magnitude. Para complicar, uma crise de asma e um resfriado recente ameaçavam sua capacidade respiratória, e a previsão meteorológica indicava que o Oceano Atlântico não facilitaria as coisas nas horas seguintes.

Doze horas e três minutos depois, ao tocar a areia do Pontal, em uma distância de 36 quilômetros, Clarice não apenas concluiu o percurso como garantiu seu nome no Guinness World Records. O feito, homologado pela Leme to Pontal Swimming Association (LPSA), conferiu a ela o título oficial de mulher mais velha a completar a prova em toda a história da modalidade.

A jornada até a praia do Recreio dos Bandeirantes exigiu uma estratégia que começou meses antes, longe do mar. O maior teste prévio da nadadora havia sido a tradicional Travessia 14 Bis, que possui 24 quilômetros de extensão. Para cobrir a diferença de doze quilômetros até o novo objetivo, ela iniciou um cronograma severo sob a supervisão do técnico Igor de Souza, dividindo os treinos entre piscinas e águas abertas de represas.

A preparação ganhou contornos ainda mais complexos devido a uma escolha técnica ousada: abrir mão do traje de neoprene. Sem a borracha que isola o frio e oferece flutuação extra, Clarice nadou protegida apenas pelo próprio preparo físico. O suporte logístico e financeiro para viabilizar a estrutura no Rio de Janeiro, que envolve taxas, deslocamentos e a contratação do barco de apoio, foi obtido de forma independente, por meio da venda de camisetas vinculadas a uma iniciativa própria, batizada de IARA.eco.

No mar, o plano de nutrição desenhado por Alessandra Rodrigues manteve a atleta ativa mesmo quando o cenário piorou. Após vencer os primeiros dez quilômetros, a nadadora encontrou uma forte correnteza contrária. Na metade final da prova, o cansaço acumulado se manifestou em dores na região lombar e em crises de tosse insistentes. Do barco de segurança, a equipe formada por Aderbal, Anne Brumanna e Júlio Anzai monitorava o ritmo das braçadas e garantia a hidratação necessária para que ela não interrompesse o percurso.

A Travessia do Leme ao Pontal atrai competidores do mundo inteiro e varia de acordo com as condições climáticas locais, testando os limites de esportistas experientes. Ao registrar o tempo oficial na costa carioca e receber a certificação internacional, Clarice Hashizume transformou o que poderia ser um desafio pessoal isolado em um marco de longevidade e rendimento para o esporte de águas abertas no país.

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