​Memórias do mar vermelho: a arqueologia subaquática revela o rastro do tráfico escravagista na Bahia

​Pesquisadores e estudantes resgatam vestígios do galeão Nossa Senhora do Rosário e Santo André na Costa de Salvador, transformando destroços marítimos em provas materiais de um crime histórico contra a humanidade.

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​No fundo do mar da Baía de Todos-os-Santos, a poucos metros da Praia de Boa Viagem, repousam os fragmentos daquilo que o arqueólogo sergipano Luis Felipe Freire Dantas Santos classifica como “um crime que não prescreveu”. Trata-se do galeão português Nossa Senhora do Rosário e Santo André, uma embarcação que oficialmente operava na Carreira da Índia transportando mercadorias orientais para Lisboa, mas que trazia em seus porões o peso oculto do tráfico ilegal de seres humanos africanos.

No primeiro dia de expedição, a equipe liderada por Santos localizou canhões despedaçados, estruturas de madeira deterioradas pelo tempo e pedaços de louça chinesa. Contudo, o indício mais contundente da real atividade do navio surgiu na forma de dezenas de cauris — pequenos búzios da espécie Cypraea moneta. No século XVIII, essas conchas, nativas do Oceano Índico e altamente valorizadas nas Maldivas, serviam como moeda de troca para a compra de homens, mulheres e crianças escravizadas na costa ocidental da África, especialmente na região do Benim. Segundo registros históricos, uma vida humana podia ser transacionada por cerca de 40 mil cauris.

O trabalho de investigação ganha contornos de reparação histórica por meio do Instituto AfrOrigens, fundado em 2023 por Santos, que também atua como professor-assistente na Universidade Federal da Bahia (UFBA). A iniciativa busca capacitar uma nova geração de pesquisadores na arqueologia subaquática, focando na reinterpretação das narrativas oficiais. Em uma formação recente na UFBA, vinte estudantes, majoritariamente mulheres negras entre 20 e 30 anos, aprenderam técnicas de medição, manuseio de ferramentas subaquáticas e arquitetura naval antes de submergirem para tocar a história de perto.

O mergulho técnico é revestido de ancestralidade e respeito. Antes de vestirem as roupas de neoprene, os participantes fazem questão de saudar suas origens. A arqueóloga Luciana Bozzo Alves, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do AfrOrigens, mergulha portando uma guia de umbanda, exibindo no braço uma tatuagem em homenagem a Ogum. Outro integrante, o babalorixá e quilombola Emerson Mec, colocou um fio de contas de Iemanjá antes de descer até os destroços. Para o grupo, os búzios encontrados no leito oceânico não são meros artefatos biológicos ou arqueológicos, mas conexões diretas com os adornos e as memórias de seus antepassados.

A operação adota um rigor quase forense. Os mergulhadores utilizam pranchetas de acrílico e lápis especiais para desenhar os destroços dispostos em uma fenda de rochas incrustadas de corais, garantindo que a cena do crime permaneça preservada. O projeto conta com o suporte internacional do Slave Wrecks Project (SWP), um braço do renomado Instituto Smithsonian criado em 2008. Com investimentos que superam 100 mil reais na empreitada baiana e a colaboração da Universidade George Washington, o SWP mapeia embarcações negreiras ao redor do globo, com registros na África do Sul, Moçambique e Estados Unidos.

No Brasil, essa mesma cooperação já havia resultado em outra descoberta de grande impacto em 2023: a localização, em Angra dos Reis, dos restos do Camargo, o último navio que transportou ilegalmente africanos para o país quando o tráfico já era formalmente proibido, desafiando abertamente as leis da época. Agora, em Salvador, os vestígios do Santo André revelam que a ocultação dessa atividade criminosa sob o pretexto do comércio de especiarias era uma prática estruturada e lucrativa, cujos vestígios o mar insiste em trazer à tona.

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