Mergulhador potiguar aliado invisível por trás das telas de Hollywood

​Como um mergulhador potiguar desafiou o preconceito na Marinha americana e acabou apagado do roteiro de um clássico do cinema

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​A história real que inspirou o filme Homens de Honra (2000) esconde um detalhe ignorado pelo cinema internacional: a presença de um brasileiro no centro dos acontecimentos. Alberto José do Nascimento, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, foi peça fundamental em um dos momentos mais emblemáticos da trajetória de Carl Brashear, o primeiro negro a se formar na Escola de Mergulho da Marinha dos Estados Unidos.

Filho de pescador e de mãe italiana, Alberto aprendeu inglês de forma autodidata na juventude, apenas observando os turistas que circulavam pelo porto de sua cidade natal. O domínio do idioma e o bom desempenho na Marinha do Brasil abriram portas para que, em 1954, ele embarcasse para Nova Jersey com o objetivo de integrar a exigente turma 56 da U.S. Navy Diving & Salvage School. O treinamento era conhecido pelo alto índice de reprovação e pelo ambiente de extrema pressão.

Ao chegar ao alojamento militar nos Estados Unidos, Alberto deparou-se com o preconceito racial segregacionista da época. Quando Carl Brashear entrou no dormitório pela primeira vez, todos os demais soldados americanos recolheram seus pertences e abandonaram o recinto em protesto. O brasileiro tomou uma decisão diferente: permaneceu no local, ignorou o boicote dos colegas e firmou ali uma parceria com Brashear.

A convivência estreitou os laços entre os dois. Anos mais tarde, em depoimentos à imprensa brasileira, Alberto relembrou que a hostilidade retratada nas telas correspondia à realidade, detalhando episódios marcantes, como o teste em que a bolsa de ferramentas de Brashear foi sabotada e jogada ao fundo do mar. Na ocasião, o colega permaneceu mais de nove horas sob águas congelantes até concluir a tarefa, contando com o acompanhamento próximo do marinheiro potiguar. Dos estrangeiros que iniciaram o curso naquele ano, Alberto esteve entre os poucos que obtiveram a aprovação final, alcançando aproveitamento superior a 75%.

​Ao retornar ao Brasil, o militar aplicou as técnicas aprendidas no exterior para estruturar os cursos de salvamento subaquático e resgate da Marinha nacional. Apesar de sua contribuição direta para os fatos que deram origem à produção cinematográfica estrelada por Cuba Gooding Jr., o personagem correspondente ao brasileiro foi substituído na ficção por uma figura americana fictícia, omitindo seu nome dos créditos oficiais da narrativa.

Alberto José do Nascimento seguiu carreira na iniciativa privada após deixar o serviço militar, gerenciando empresas de salvamento marítimo, e fixou residência no Rio Grande do Norte em seus últimos anos. O pioneiro do mergulho nacional faleceu em novembro de 2018, aos 91 anos, deixando um legado de cooperação internacional e retidão técnica gravado na história das forças navais.

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