O som que ecoa do galpão da Associação dos Catadores da Dignidade (ACADE), no bairro de Santa Terezinha, em Camaragibe, repete uma estatística nacional sem precisar ler relatórios. Ali, o barulho do vidro colidindo e o estalo do plástico sendo prensado ganham ritmo pelas mãos de catorze pessoas. Oito são mulheres. O dado local espelha com precisão o cenário mapeado pelo Atlas da Reciclagem: a espinha dorsal da gestão de resíduos no Brasil tem rosto feminino, correspondendo a 56% dos trabalhadores de cooperativas.
No galpão, na Região Metropolitana do Recife, a liderança cabe a Luzinete Lima. Mais do que gerenciar toneladas de materiais que a cidade rejeita, ela administra ausências. A maior delas não é o maquinário, mas a falta de creches públicas no município. A maioria das catadoras da ACADE é composta por mães solo. Quando a rede de apoio informal falha, a triagem para. Sem ter onde deixar os filhos, as trabalhadoras são obrigadas a ficar em casa, o que reduz uma renda que já é fragmentada e oscila entre R$ 500 e R$ 800 por quinzena.
A sobrevivência da cooperativa depende essencialmente do papelão, responsável por doze toneladas comercializadas a cada duas semanas. Contudo, a precariedade da infraestrutura faz com que o clima atue como um sócio punitivo. No período de chuvas, a falta de uma cobertura adequada no depósito molha o material acumulado. O papelão encharcado perde valor de mercado instantaneamente, cortando os ganhos das famílias praticamente pela metade.
Onde o Estado se retrai, a persistência civil assume o papel de sustentação. No Centro de Camaragibe, o quintal de Pedro Paulo, de 71 anos, funciona há quase uma década como um ponto de coleta voluntária e conscientização de vizinhos. A cada quinze dias, o caminhão da ACADE passa em sua residência para recolher o que foi poupado do descarte incorreto. Para o morador, a iniciativa supre a carência de campanhas públicas de educação ambiental que deveriam mobilizar a população em massa para proteger os rios e o solo locais.
O material que sai do quintal de um morador consciente e chega às mãos que o separam no galpão fecha um ciclo de sobrevivência que, para Luzinete, começou há mais de quarenta anos. Ela deixou a fome severa no município de Surubim, no Agreste pernambucano, para encontrar no antigo lixão a base para sustentar e educar os filhos.
O trabalho manual com o descarte urbano acabou se tornando o território onde essas mulheres fincaram suas independências. No fim do dia, cada fardo prensado representa menos poluição nos canais da cidade e a garantia de que haverá prato cheio na mesa de quem, rotineiramente, limpa o que a sociedade prefere não ver.





