A academia e o barro popular finalmente se encontraram em uma titulação histórica. A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) concedeu o título de Doutor Honoris Causa in memoriam a Vitalino Pereira dos Santos, o Mestre Vitalino. A honraria formaliza o que o povo e os museus do mundo já sabiam: a genialidade do homem que usou a lama para registrar a alma do Nordeste. A cerimônia ocorreu no Centro Acadêmico do Agreste, em Caruaru, cidade onde o artesão nasceu, viveu e imortalizou sua assinatura estética.
Proposta originalmente pelo Núcleo de Formação Docente do campus e chancelada pelo Conselho Universitário no final de 2025, a homenagem vai além do protocolo institucional. Ela representa um acerto de contas com a história cultural da região. Ao conferir a sua mais alta distinção a um artista popular, a universidade reconhece que o conhecimento e a produção de saberes não estão restritos aos muros dos laboratórios ou às teses escritas. Eles também se manifestam nas mãos que moldam a terra e preservam a memória coletiva de uma gente.
Nascido em 1909, Vitalino começou sua jornada ainda menino, criando pequenos brinquedos de argila que imitavam a fauna local. Com o tempo, sua percepção visual refinou-se a ponto de traduzir em pequenas esculturas figurativas as feiras, os retirantes, os ritos religiosos, os músicos de pífano, arte que ele mesmo praticava, e o trabalho rural. O que era matéria-prima bruta virou crônica visual do cotidiano do Agreste, um espelho fiel da identidade brasileira que acabou rompendo fronteiras nacionais para alcançar coleções internacionais.
O legado do ceramista transformou o Alto do Moura, bairro periférico de Caruaru, em uma referência global de arte figurativa, servindo de escola e sustento para gerações sucessivas de artesãos. Hoje, as peças que saíram da criatividade espontânea de Vitalino repousam em vitrines de prestígio, como o Museu Casa do Pontal e a Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, além do próprio acervo da UFPE. A titulação tardia, mas necessária, celebra o homem que não precisou de diplomas para ensinar o Brasil a ler a própria história através do barro.





