O avanço da digitalização bancária colidiu com a realidade social do sertão baiano nesta semana. A Justiça da Bahia determinou que o Bradesco suspenda o encerramento das atividades de seu Posto de Atendimento Bancário (PAB) em Macururé, município de 7,2 mil habitantes. A decisão atende a um pedido da prefeitura local e interrompe um plano de desativação física que estava programado para ocorrer na última sexta-feira, o qual previa a migração de todas as contas para a cidade vizinha de Chorrochó, distante cerca de 30 quilômetros.
A justificativa da instituição financeira de que os canais digitais e sete correspondentes comerciais locais (como mercados e farmácias) supririam a demanda foi rejeitada pelo juiz Dilermando de Lima Costa Ferreira, da 1ª Vara de Chorrochó. O magistrado apontou que a retirada abrupta do atendimento presencial, sem um plano de transição estruturado, fere o interesse público.
O pano de fundo da disputa envolve um contrato de prestação de serviços entre o município e o banco, responsável pelo gerenciamento da folha de pagamento dos servidores ativos, aposentados e pensionistas. A decisão judicial enfatizou que, ao assumir o controle dos salários do funcionalismo, a instituição bancária vinculou-se à obrigação de fornecer meios acessíveis e eficazes para o recebimento desses valores de natureza alimentar. Além disso, o fechamento prejudicaria de imediato 127 servidores com empréstimos consignados ativos.
A análise jurídica também levou em conta as barreiras tecnológicas e a segurança da região. Em uma localidade com forte população rural e idosa, serviços básicos como desbloqueio de cartões e recuperação de senhas tornam-se inviáveis sem o suporte humano. A transferência do fluxo de dinheiro para pequenos comércios locais também foi apontada como um risco de segurança pública, devido à falta de infraestrutura de proteção contra assaltos se comparada a uma estrutura bancária tradicional.
Há ainda o fator econômico regional. A necessidade de deslocamento dos moradores para o município vizinho geraria custos extras de transporte e provocaria a evasão de recursos, já que o dinheiro sacado em outra cidade tende a ser gasto no comércio de lá, enfraquecendo as vendas em Macururé.
A reestruturação dos grandes bancos, marcada pelo enxugamento de estruturas físicas, ocorre em um cenário de alta rentabilidade. No primeiro trimestre de 2026, o lucro líquido do Bradesco registrou crescimento de 16,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, atingindo R$ 6,81 bilhões. Representantes do setor dos bancários apontam que esse movimento transfere para o consumidor o ônus operacional: ao realizar transações sozinho pelo celular, o cliente assume a responsabilidade por eventuais erros de digitação em transferências ou pagamentos, isentando a empresa de falhas que antes eram geridas por profissionais.
O Bradesco informou que não comenta decisões judiciais e tem o prazo de 15 dias para apresentar sua contestação no processo. Enquanto isso, o atendimento presencial em Macururé segue mantido por ordem da lei.





