De jaleco a tornozeleira: como a elite médica do Cariri cearense virou alvo por fraude em concursos

​Investigação sobre fraude no concurso da Polícia Civil do Ceará avança e joga luz sobre esquema que envolve de ex-vereador a psiquiatra pop nas redes sociais.

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​A pacata rotina de consultórios e plantões no Cariri cearense foi chacoalhada por uma ofensiva policial que coloca a elite intelectual e política local no banco dos réus. Cinco médicos e um estudante de medicina tornaram-se os novos alvos de uma operação da Polícia Civil que investiga um sofisticado esquema de fraude em concursos públicos. O desdobramento resultou na apreensão de equipamentos eletrônicos, R$ 15 mil em espécie e na instalação de tornozeleiras eletrônicas nos investigados, desenhando um cenário em que o estetoscópio deu lugar à vigilância judicial.

As investigações atuais são o fio condutor de um escândalo que começou a vir à tona em agosto de 2025, durante a prova para Oficial Investigador da própria Polícia Civil, em Fortaleza. Naquela ocasião, quatro pessoas de Juazeiro do Norte foram presas em flagrante em diferentes locais de votação, traídas por chiados, pontos eletrônicos milimétricos e celulares ocultos. Entre os capturados na época estavam o advogado Cícero Leandro dos Santos Belém, a enfermeira Raphaely Leandro da Fonseca e o médico Robson Leite Sampaio, este último flagrado rondando os prédios de exame em uma caminhonete, coordenando o envio de gabaritos.

​Embora a polícia mantenha sigilo sobre os nomes desta nova fase, os bastidores apontam para figuras de grande relevância pública em Juazeiro do Norte. Entre os alvos estão Fernando França Fernandes, um psiquiatra com forte apelo digital e mais de 100 mil seguidores que vende mentorias de comportamento, e Victor Rocha Cabral de Lacerda, especialista em clínica médica que ocupou uma cadeira na Câmara de Vereadores do município até 2024.

A gravidade das suspeitas ganha contornos ainda mais complexos com a informação de que um dos médicos investigados havia sido aprovado recentemente para o cargo de perito oficial em outro estado da federação.

Ao todo, as equipes policiais cumpriram 17 mandados de busca e apreensão. Computadores e celulares recolhidos foram encaminhados para o setor de perícia técnica para rastrear a extensão da rede criminosa e identificar se o grupo atuou em outros certames pelo país. O caso expõe uma contradição ética profunda: profissionais que já gozavam de prestígio social e estabilidade financeira utilizando métodos rudimentares de trapaça eletrônica para burlar o acesso ao serviço público.

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