Em maio de 1986, quando o então prefeito Ronaldo Cunha Lima cortou a fita inaugural do Parque do Povo, Campina Grande oficializava não apenas um espaço público, mas um projeto de centralidade cultural. Quatro décadas antes da atual esplanada de concreto e metal erguer-se no prumo do Açude Novo, a área conhecida como Coqueiros de Zé Rodrigues era um vácuo urbano ocupado por palhoças improvisadas. Ali, artistas locais testavam os primeiros acordes do que viria a ser rotulado, anos mais tarde, como o Maior São João do Mundo.
A transição do improviso para a engenharia teve como símbolo inicial a Pirâmide, obra do arquiteto Carlos Alberto Melo de Almeida. Projetada originalmente para funcionar como um “forródromo” coberto, a estrutura de concreto superou a função de abrigo junino para se tornar o ponto de referência visual da cidade. A escala do projeto, que inicialmente gerou ceticismo na comunidade local, antecipou a necessidade de espaço para uma festividade que rapidamente extrapolou os limites dos bairros periféricos.

Quarenta anos após os primeiros traços, o complexo passou por sua mutação física mais severa. Uma reforma recente injetou R$ 40 milhões na infraestrutura local, viabilizada por operações de crédito do município que resultaram na desapropriação de 34 imóveis. O resultado foi a fusão definitiva com o Parque Evaldo Cruz, expandindo a área útil para cerca de 40 mil metros quadrados. A integração física com o Açude Novo resolveu o antigo gargalo de fluxo de pedestres, permitindo o deslocamento da cidade cenográfica e descentralizando os polos de serviços médicos e de segurança.
O impacto econômico do perímetro reflete-se na velocidade com que a montagem da estrutura para a temporada de 2026 começou a ser executada. A organização do evento antecipou a fixação das bases para restaurantes e quiosques, permitindo previsibilidade aos comerciantes cadastrados para os 33 dias de festa programados entre junho e julho. O redesenho do layout foca na otimização dos fluxos internos para comportar atrações de massa, ilhas de forró tradicional e as ativações de marcas patrocinadoras.
Para além do calendário de inverno, o Parque do Povo opera como um termômetro sazonal da sociedade paraibana. No início do ano, o reduto do forró cede espaço ao Encontro para a Consciência Cristã. Durante o período carnavalesco, a Pirâmide substitui a sanfona por estandes de literatura religiosa na Feira do Livro (FELICC), atraindo um público rotativo estimado em 100 mil pessoas. O mesmo teto que abriga o debate teológico em fevereiro serve de altar em 12 de junho para o Casamento Coletivo, cerimônia que formaliza a união de cem casais simultaneamente, mantendo uma tradição iniciada com metade desse volume.
A flexibilidade do espaço confunde-se com a própria crônica urbana de Campina Grande. O local que já recebeu Luiz Gonzaga na maturidade de sua carreira hoje acolhe métricas de superlotação e recordes populares, como as apresentações de quadrilhas com mais de duas mil pessoas e a produção de toneladas de derivados do milho. O Parque do Povo consolidou-se como o espaço onde a cidade se reconhece, se exibe e se consome ao longo de todo o ano.





