A hegemonia de Hollywood no mercado brasileiro costuma criar uma ilusão de ótica sobre a produção global: a de que o cinema se resume ao eixo americano-europeu. Na contramão desse isolamento cultural, o Cineclube Memorial utiliza sua sessão desta terça-feira, 19, para confrontar a estatística de que a Índia, maior produtora de filmes do planeta, permanece virtualmente invisível nas telas nacionais. O projeto, que já soma oito anos de resistência em Campina Grande, ocupa o Centro da cidade com a exibição de “A Última Sessão” (Last Film Show), obra que representou a Índia no Oscar e que propõe uma reflexão sobre a própria matéria-prima do olhar.
Diferente do estereótipo de musicais coloridos que muitas vezes define a percepção ocidental sobre o cinema indiano, o longa de Pan Nalin mergulha em uma narrativa autobiográfica e sensorial. A trama acompanha Samay, um garoto cuja fascinação pela luz o leva a subverter a lógica do cotidiano para entender como imagens em movimento ganham vida. O filme não se limita ao saudosismo; ele documenta o momento em que as latas de película perdem espaço para os servidores digitais, transformando não apenas a estética das projeções, mas o ofício de quem vive para exibir histórias.
A escolha do título para a programação do Memorial estabelece um diálogo direto com clássicos como o italiano “Cinema Paradiso”, mas com a textura específica das ferrovias e das cores da Índia rural. A obra serve como um espelho da mudança tecnológica que extinguiu projetores manuais e mudou o comportamento do espectador, um tema que ganha camadas extras de profundidade durante o debate conduzido pelo professor Romero Azevedo logo após a exibição.
O evento reforça o papel do cineclube como um espaço de curadoria ativa, capaz de oferecer o que o mercado de massa ignora por questões estritamente comerciais. Sob a coordenação da professora Eneida Maracajá, a sessão gratuita se posiciona como um ponto de encontro para quem busca entender o cinema além do entretenimento passivo. Localizado atrás dos Correios, na Avenida Getúlio Vargas, o espaço abre suas portas para 90 espectadores que, por uma noite, poderão enxergar o mundo através de uma fresta que as grandes redes de cinema insistem em manter fechada.





