Tarsila do Amaral não imaginava que, ao presentear o marido Oswald de Andrade com uma tela de pés agigantados e cabeça minúscula em 1928, estava assinando a certidão de nascimento do movimento mais barulhento da arte nacional. O Abaporu, o “homem que come gente” em tupi, nasceu como um gesto romântico entre a elite intelectual paulista, mas acabou devorado por uma realidade muito menos poética: a volatilidade do capital e o azar doméstico.
A lua de mel modernista durou pouco. Em 1929, enquanto o mercado financeiro global derretia, o casamento de Tarsila também ruía. Oswald trocou a pintora pela audácia de Pagu, e a herdeira das fazendas de café viu seu patrimônio evaporar, sendo forçada a entender, pela primeira vez, o conceito de jornada de trabalho. Tarsila atravessou décadas sem prever que sua criatura se tornaria um ativo financeiro de alta performance, longe do alcance do Estado brasileiro.
A trajetória da tela após a morte da artista, em 1973, é um roteiro de perdas e danos. O quadro circulou por galerias e coleções particulares até que o mercado internacional estendeu o tapete vermelho. Em 1995, em um leilão da Christie’s, o empresário argentino Eduardo Costantini desembolsou US$ 1,4 milhão pela obra, aproveitando a lerdeza das autoridades brasileiras que tentaram, tarde demais, tombar a peça como patrimônio histórico.
Hoje, o maior símbolo da identidade visual brasileira repousa em Buenos Aires, com um valor estimado de US$ 50 milhões. Enquanto o Brasil discute suas raízes e a “deglutição” da cultura estrangeira pregada pelo Manifesto Antropófago, os vizinhos argentinos apenas observam, com a tranquilidade de quem detém o recibo da nossa história. O Abaporu cumpriu sua profecia: foi engolido, mas não pela cultura nacional, e sim pela conta bancária de um colecionador estrangeiro atento.





