O Palácio do Planalto sofreu, nesta quarta-feira (29), um revés político que não encontrava precedentes na história republicana moderna. Após cinco meses de um cerco silencioso liderado por setores da Câmara Alta, o Senado Federal rejeitou a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. O resultado encerra um hiato de mais de um século: a última vez que o Legislativo barrou um nome para a mais alta Corte do país foi em 1894, sob o governo de Floriano Peixoto.
A derrota foi consolidada no plenário após uma jornada exaustiva de oito horas de sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Embora Messias tenha saído do colegiado com um placar favorável de 16 a 11, a resistência nos bastidores se provou intransponível no voto direto e secreto. O governo, que projetava uma margem de segurança com 45 apoios, não alcançou o quórum mínimo de 41 votos favoráveis, revelando uma desidratação da base aliada em um momento de alta sensibilidade institucional.
O impasse que culminou na rejeição teve como ponto de tensão a preferência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, pelo nome de Rodrigo Pacheco. Durante meses, a indicação foi mantida em suspensão pelo Executivo, que tentava medir a temperatura do ambiente político antes de oficializar o envio do nome em abril. O gesto de Messias em buscar parlamentares individualmente e destacar seu perfil religioso e conservador em temas como o aborto não foi suficiente para desarmar a blindagem da oposição e a insatisfação de grupos que detêm o controle da pauta na Casa.
Durante o interrogatório técnico na CCJ, Messias adotou uma postura de equilíbrio, tentando sinalizar independência e respeito às prerrogativas parlamentares. Chegou a validar discussões sobre a limitação de decisões monocráticas e criticou indiretamente a longevidade de inquéritos sob sigilo no Supremo. Contudo, o esforço de moderação esbarrou na percepção de que a vaga se tornara um ativo de disputa de poder entre os Poderes, mais do que uma avaliação estritamente jurídica.
Com a negativa do Senado, o presidente Lula enfrenta o desafio de indicar um novo nome em um cenário de capital político fragilizado. Após ter emplacado Cristiano Zanin e Flávio Dino com sucesso, o Executivo agora precisa recalibrar sua estratégia de interlocução com o Congresso para evitar que a próxima escolha resulte em um novo isolamento. A cadeira deixada vaga permanece sem ocupante, enquanto o cenário político aguarda o próximo movimento de um governo que agora sabe que o aval dos senadores não é mais uma mera formalidade burocrática.





