O arco e a madeira: a nova geometria da cantoria nordestina

​Encontro entre as linhagens de Vital Farias e Elomar com o veterano Xangai renova o fôlego da música regional em palcos nacionais

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​A música de câmara e o som das brenhas brasileiras ensaiam uma aproximação que vai além do mero saudosismo. No centro dessa movimentação está João Farias, paraibano que carrega no DNA a herança de Vital Farias e, nos dedos, o rigor técnico do violão erudito. Sua presença constante ao lado de Xangai sinaliza uma transição geracional que preserva a densidade poética do Nordeste enquanto flerta com a precisão acadêmica das cordas.

Recentemente, o público pernambucano testemunhou essa fusão no Teatro do Parque, no Recife. Durante a celebração das cinco décadas de estrada de Xangai, a participação de João Farias não serviu apenas como acompanhamento, mas como um diálogo entre épocas. O palco, que costuma abrigar a crueza das violas, recebeu uma roupagem mais refinada, evidenciando que a música dita “regional” possui sofisticação suficiente para ocupar qualquer espaço de concerto.

Essa colaboração ganha contornos de projeto histórico com a confirmação do espetáculo “Uma Cantoria para Vital”. O evento, programado para o final de novembro em Belo Horizonte, reúne um time que personifica a continuidade das grandes famílias musicais do país. Ao lado de Xangai, João Farias e João Omar, este último herdeiro da estética rigorosa de Elomar Figueira Mello, montam um cenário de reverência à obra de Vital Farias.

​O diferencial de João Farias reside justamente na capacidade de transitar entre esses dois mundos sem que um anule o outro. Ao unir a técnica clássica à “alma” das composições nordestinas, ele evita o pastiche e a simplificação do gênero. O resultado é uma sonoridade que respeita a tradição oral, mas não teme a complexidade das partituras. Essa aliança com Xangai reforça que a música de raiz, longe de estar estagnada, encontra novos caminhos na simbiose entre o talento consolidado e a renovação técnica.

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