Eu vivi na pele, e nas canelas, o que era dividir o teto com a aristocracia. Minha Pequinês, a Suzi, não era exatamente uma “cadela de estimação”; ela era uma entidade que me permitia habitar o mesmo ambiente que ela, desde que eu respeitasse o protocolo.
Dividir o corredor com uma Pequinês como a minha Suzi era um exercício diário de diplomacia internacional. Não se tratava de ter um animal de estimação, mas de hospedar uma monarca exilada que via o sofá como seu território soberano.
O desaparecimento dessa raça das casas brasileiras, trocada pela onipresença de Shih Tzus e Pugs, diz muito menos sobre estética e muito mais sobre o nosso ego. O Pequinês, com sua face que parece ter sido esculpida em um momento de profunda insatisfação, nunca foi um cão para amadores. Ele exige o que o mundo moderno mais teme: o esforço da conquista.
Enquanto os substitutos atuais funcionam como máquinas de aprovação instantânea, prontos para lamber qualquer mão que se aproxime, a Suzi operava em outra frequência. Ela personificava aquele desdém imperial que os registros históricos dizem ter fascinado imperadores chineses por milênios. O mercado pet percebeu que a maioria dos tutores prefere a docilidade genérica de um “urso de pelúcia” que aceita laços e fantasias sem protestar. O Pequinês, ao contrário, mantém uma integridade quase ofensiva; se ele não gosta do seu perfume ou do seu tom de voz, ele simplesmente se retira para o seu canto com a dignidade de quem carrega um DNA que já foi sagrado.
Essa substituição em massa nas vitrines das pet shops é o triunfo do utilitarismo sobre a personalidade. O Shih Tzu é, na prática, um Pequinês que passou por um treinamento de relações públicas: ele é fofo, submisso e comercialmente viável. Já a raça da Suzi carrega o peso de uma genética que não perdoa a pressa. Aquela respiração ruidosa e o andar empolado, que antes eram vistos como sinais de distinção, tornaram-se passivos em uma era que busca o “plug and play” até nos seres vivos. Queremos o focinho achatado, mas não queremos o temperamento que vem com ele.
Olhar para o passado, lembrando do olhar julgador da minha pequena imperatriz, é perceber que o Pequinês não foi extinto, ele apenas se recusou a se modernizar. Ele é um lembrete vivo, e cada vez mais raro, de que nem tudo o que vive sob nosso teto precisa ser um espelho da nossa carência por afeto. No fim das contas, talvez tenhamos trocado o Pequinês por raças mais “fáceis” porque não suportamos a ideia de um cão que, no fundo, sabe que é muito mais importante do que o próprio dono.





