O imposto sobre a ilusão: R$ 52 milhões para chamar de seus

​Concurso 2.997 transforma a Avenida Paulista na capital mundial do "e se?", cobrando seis reais por um passaporte para a ilha da fantasia

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​Às 21h de hoje, o Espaço da Sorte deixará de ser apenas um ponto comercial no número 750 da Avenida Paulista para se converter no tribunal supremo das finanças imaginárias. Em jogo, o concurso 2.997 da Mega-Sena oferece a módica quantia de R$ 52 milhões, um valor capaz de transformar o mais convicto asceta em um entusiasta do capitalismo selvagem em questão de segundos. O ritual, transmitido ao vivo pelas redes sociais da Caixa, serve como o clímax de uma jornada que começa com uma nota de seis reais e termina, na maioria esmagadora das vezes, com um papel térmico amassado no fundo do bolso.

​O sistema é democrático em sua crueldade estatística. Até as 20h, qualquer brasileiro pode depositar sua fé em algoritmos caseiros que misturam o número da placa do primeiro carro que passou na rua com a idade em que perdeu o primeiro dente de leite. É a única janela do dia em que a lógica aritmética é suspensa em favor de um otimismo delirante, onde a probabilidade de uma em cinquenta milhões parece, estranhamente, uma aposta segura. O site das Loterias Caixa e as casas lotéricas funcionam como confessionários modernos, onde o dízimo da esperança é pago antecipadamente sob a promessa de uma vida sem boletos.

​Se o prêmio acumulado encontrar um dono, o Brasil ganhará um novo excêntrico com problemas de segurança e parentes esquecidos que surgem do além. Se o globo girar e ignorar os palpites da nação, o montante crescerá para alimentar um novo ciclo de devaneios no próximo sorteio. No fim das contas, a Mega-Sena é o grande nivelador social: por alguns minutos, o estagiário e o executivo compartilham o mesmo sonho de nunca mais pisar naquele escritório, provando que o brasileiro não quer apenas dinheiro, mas sim o direito absoluto de nunca mais ter que ouvir um despertado+×r.

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