O cruzamento de registros da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e do controle do espaço aéreo brasileiro colocou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no centro de uma controversa rede de deslocamentos executivos. Segundo levantamento da “Folha de S.Paulo”, Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, teriam utilizado aeronaves vinculadas ao empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, em pelo menos oito ocasiões entre maio e outubro de 2025. O episódio ganha contornos mais complexos devido ao vultoso contrato de R$ 129 milhões mantido pelo escritório de Viviane com a instituição financeira, encerrado apenas após a liquidação do banco pelo Banco Central.
A investigação jornalística detalha que a maioria dos trajetos ocorreu por meio da Prime Aviation, uma companhia de compartilhamento de bens de luxo operada por um fundo do qual Vorcaro era sócio. Embora a empresa possua licença para táxi aéreo, a frequência e a origem das aeronaves levantam questionamentos sobre a proximidade entre o magistrado e o setor privado. Um dos voos mais sensíveis teria ocorrido em agosto de 2025, em um jato Falcon 2000 registrado em nome da FSW SPE. Esta empresa pertence ao pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que foi detido pela Polícia Federal em desdobramentos de investigações que tramitam na própria Corte.
As respostas das partes envolvidas evidenciam um embate direto entre os registros de voo e as versões oficiais. O gabinete de Alexandre de Moraes classificou as informações como “absolutamente falsas”, assegurando que o ministro nunca esteve a bordo de aviões de Vorcaro ou Zettel, reforçando que Moraes sequer conhece o pastor investigado. Por outro lado, o escritório Barci de Moraes adotou uma estratégia de defesa baseada na transparência comercial. A banca confirmou a contratação de serviços da Prime Aviation, mas ressaltou que o pagamento era realizado mediante a compensação de honorários advocatícios previstos em contrato, tratando as viagens como uma modalidade operacional padrão, sem qualquer vínculo pessoal com os proprietários das máquinas.
O cenário é agravado pelo contexto jurídico de Fabiano Zettel, que busca um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República. Enquanto o escritório de advocacia reitera que nenhum de seus profissionais possui contato com o investigado, o mercado jurídico e político observa com lupa a natureza do contrato de R$ 3,6 milhões mensais que unia a família do ministro ao Banco Master. A Prime You, responsável pela operação das aeronaves, preferiu o silêncio, amparando-se na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e em cláusulas de confidencialidade para não confirmar nem negar a lista de passageiros de seus clientes.





