O grande vazio de silício: onde foi parar a revolução que ia pagar as nossas contas?

​Com US$ 410 bilhões no ralo da automação, a IA entrega o desempenho de um estagiário caro que só sabe fazer PowerPoints bonitos e promessas vazias.

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Se a inteligência artificial fosse um funcionário, ela já estaria no RH explicando por que o investimento de centenas de bilhões ainda não se traduziu em um centavo real de crescimento para o PIB dos Estados Unidos. O hype, que até ontem era vendido como o novo motor do mundo, começa a soar como aquela conversa de primo que descobriu as criptomoedas em 2021: muita convicção, muitos termos técnicos e um saldo bancário que insiste em discordar da narrativa.

​O Goldman Sachs, geralmente o primeiro a inflar o otimismo do mercado, resolveu trocar o champanhe pelo café frio da realidade. Segundo os analistas da casa, o impacto da tecnologia na economia real é, até agora, nulo. É o equivalente corporativo a comprar uma Ferrari para ficar preso no trânsito da Marginal Tietê. O dinheiro flui, impressionantes US$ 410 bilhões só no último ano, mas a produtividade, aquela entidade mística que deveria fazer o país decolar, parece ter tirado férias prolongadas.

​Parte do problema reside no fato de que o patriotismo econômico não resiste a uma nota fiscal de chips. Quando o Vale do Silício abre a carteira, o dinheiro não irriga o solo americano; ele pega um voo direto para Taiwan. É uma exportação de capital que alimenta o crescimento alheio enquanto os CEOs locais tentam convencer acionistas de que “o futuro está logo ali na esquina”. O problema é que a esquina parece estar cada vez mais distante, e o combustível está ficando caro demais.

​A teoria do “paradoxo da produtividade” ressurge agora com uma roupagem mais moderna e algorítmica. O National Bureau of Economic Research aponta que a IA funciona como um filtro de rede social para balanços financeiros: ela faz a empresa parecer mais inteligente e ágil, mas a estrutura física e as cadeias de suprimento continuam com o mesmo gingado de uma tartaruga reumática. Funcionários podem até redigir e-mails em segundos, mas se o caminhão continua parado no pátio, o milagre tecnológico morre antes de chegar ao caixa.

​Dario Perkins e Brian Peters, vozes que preferem dados a profecias, reforçam o coro dos céticos. Não há rastro de melhora no emprego ou saltos de eficiência que justifiquem a euforia. O que temos, por enquanto, é uma corrida armamentista de servidores e processadores que consomem energia o suficiente para iluminar cidades inteiras, tudo para que possamos gerar imagens de gatos em Marte.

​Mesmo com o sinal amarelo piscando, a previsão é de que o mercado dobre a aposta, injetando US$ 660 bilhões este ano. Resta saber se estamos presenciando o nascimento de uma nova era ou apenas construindo a maior e mais sofisticada bolha de sabão da história. Se o retorno econômico continuar sendo apenas “questionável”, em breve o único trabalho que a IA vai automatizar com perfeição é o de queimar o dinheiro dos investidores.

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