24 de fevereiro de 1930. O Sertão que desafiou o Palácio: o levante de Princesa e o fio solto da república velha

​Há exatos 96 anos, o coronelismo de José Pereira Lima transformava o interior da Paraíba em um território autônomo, antecipando o colapso do sistema político que definia o Brasil.

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Em 24 de fevereiro de 1930, o mapa da Paraíba foi rasurado por um conflito que extrapolava a simples disputa paroquial. Na então vila de Princesa, o coronel José Pereira Lima, figura de proa da política local, rompeu com o governo estadual de João Pessoa, dando início a uma insurreição armada que colocaria em xeque a autoridade constituída e serviria de laboratório para a Revolução de 1930. O estopim, embora pintado com as cores da resistência regional, era essencialmente econômico: a tentativa de João Pessoa de modernizar a arrecadação tributária e centralizar o poder, asfixiando as rotas comerciais tradicionais que ligavam o sertão paraibano aos estados vizinhos sem passar pelo crivo do fisco da capital.

 

O embate não se restringiu a gabinetes ou manifestos. O que se viu no sertão foi a materialização de uma guerra civil em escala reduzida, onde cerca de dois mil homens sob o comando de Zé Pereira enfrentaram o braço armado do Estado. A Polícia Militar da Paraíba viu-se diante de uma resistência organizada, entrincheirada em um território que conhecia como a palma da mão e movida por uma estrutura de lealdade coronelista que o idealismo reformador de João Pessoa subestimara. A “República de Princesa”, como ficou conhecida, tornou-se um enclave de desafio à ordem estadual, expondo as entranhas de um Brasil que tentava se desvencilhar do arcaísmo enquanto as oligarquias locais lutavam por sua sobrevivência política e financeira.

 

A relevância histórica deste episódio reside na sua capacidade de ter funcionado como um catalisador de tensões nacionais. Enquanto as balas cruzavam o semiárido, o cenário político brasileiro se fragmentava, culminando, meses depois, no assassinato de João Pessoa no Recife e na subsequente ascensão de Getúlio Vargas ao poder. A Revolta de Princesa, portanto, não foi um evento isolado de teimosia sertaneja; foi o sintoma agudo de uma federação em crise, onde o choque entre a modernização institucional e a autonomia dos clãs regionais atingiu seu ponto de não retorno. Hoje, o episódio permanece como um estudo de caso sobre os limites do poder central e a complexidade das elites que moldaram a identidade política do Nordeste.

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