O peso do fio: por que a energia elétrica insiste em desafiar a gravidade econômica

​Enquanto o IPCA tenta estacionar, as tarifas de luz aceleram em 2026 impulsionadas por um sistema que ainda depende da chuva e de subsídios bilionários.

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O brasileiro já se habituou a olhar para o céu com uma preocupação que vai além da meteorologia. Em 2026, a conexão entre o clima e o bolso torna-se ainda mais estreita. Projeções de consultorias e instituições financeiras desenham um cenário de descolamento: enquanto a inflação oficial caminha para um patamar de 4%, o custo da energia elétrica deve saltar entre 5% e 8%. Esse fenômeno não é um soluço isolado, mas o reflexo de uma estrutura energética que, apesar da modernização, permanece refém de ciclos hídricos e de uma arquitetura tributária complexa.

O motor dessa alta é alimentado por uma dualidade persistente. De um lado, o fantasma do El Niño ameaça secar as bacias do Norte e Nordeste, forçando o Operador Nacional do Sistema a recorrer ao parque termelétrico. O custo de manter essas usinas, essenciais para a segurança, mas onerosas para a operação, é o que ativa o gatilho das bandeiras tarifárias, aquela coloração variável na fatura que o consumidor aprendeu a temer. Quando as águas descem nos reservatórios, os preços sobem nas residências e indústrias, criando um efeito cascata que encarece desde o banho matinal até a produção de alimentos.

Contudo, a pressão não vem apenas das nuvens. Existe um componente invisível e crescente na conta: a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Orçada em quase R$ 48 bilhões para este ciclo, a CDE funciona como um grande fundo de subsídios que financia de programas sociais a incentivos setoriais. O aumento de 18% nesse encargo revela uma distorção matemática onde o consumidor comum acaba financiando uma política pública de larga escala diretamente via tarifa, e não via impostos diretos.

Ao observar o retrovisor de 15 anos, percebe-se que a energia elétrica acumulou uma valorização de 177%, deixando os 122% da inflação geral para trás. Esse histórico mostra que o setor elétrico brasileiro vive uma inflação própria, descolada da realidade de outros bens de consumo. Em 2026, o desafio para o país não será apenas gerar elétrons, mas reformular a distribuição desses custos para que a luz deixe de ser, ano após ano, o principal vilão do poder de compra nacional.

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