O frevo pede passagem (e silêncio) no picadeiro político de Olinda

​A ladeira ficou pequena para tanta herança: entre o surdo do samba e os metais da orquestra, a prefeitura tenta reger um Carnaval que agora se resolve no decreto e na planilha de custos.

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Olinda, a cidade que se orgulha de ser um museu a céu aberto com ladeiras em declive acentuado, descobriu que o multiculturalismo, no papel, é uma beleza; no asfalto, é um engarrafamento de egos e decibéis. O tradicional embate entre o frevo, que detém o título de patrimônio da humanidade e, consequentemente, a chave da casa, e o samba, que deixou de ser “coisa de carioca” para fincar bandeira no Sítio Histórico, virou um imbróglio que nem a mais afinada orquestra consegue harmonizar sem um empurrão do Diário Oficial.

A disputa, que já vinha cozinhando em banho-maria nas redes sociais, transbordou para os gabinetes. De um lado, os guardiões do frevo argumentam que a sonoridade estridente das percussões e o uso de carros de som pelos blocos de samba asfixiam a fluidez dos metais. Do outro, agremiações como a Bateria Cabulosa e o Patusco reivindicam um espaço que, dizem eles, já ocupam organicamente há décadas. O resultado dessa “disritmia” foi um decreto municipal que impõe limites ao som mecânico e prevê multas para quem ousar obstruir a passagem das troças tradicionais. É a burocracia tentando colocar ordem no caos festivo, como se fosse possível desenhar uma faixa exclusiva para o Passo em meio ao formigueiro humano.

No entanto, onde há batuque e multidão, o dinheiro público costuma dançar conforme a música. Enquanto a consultoria Quaest contabiliza 46 orquestras de frevo na ativa, os bastidores revelam que o prestígio histórico nem sempre se traduz em equidade financeira. A Troça Cariri, centenária e simbólica, desfila com 40 mil reais, enquanto grupos de samba mais recentes abocanham fatias variáveis do bolo municipal. A névoa se torna ainda mais densa quando nomes da política local, como o vereador Felipe Nascimento e o ex-prefeito Lupércio, aparecem vinculados a cachês generosos, provando que, em Olinda, a “inexigibilidade de licitação” é o ritmo que realmente não para de tocar.

No fim das contas, a segregação denunciada por alguns mestres de bateria esbarra na necessidade de convivência forçada. O frevo pode ser a “mãe da história”, mas o samba virou o inquilino que não pretende entregar as chaves. Entre decretos que tentam silenciar as caixas de som e planilhas que favorecem os amigos da corte, o folião assiste a uma ópera burocrática onde o brilho, embora digam ser para todos, parece ser mais reluzente para quem sabe articular melhor nos corredores da prefeitura do que nas curvas da Ladeira da Misericórdia.

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