Uma das inovações médicas mais impactantes dos últimos anos tem a assinatura da química brasileira Lívia Schiavinato Eberlin, professora na Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos. Trata-se da MasSpec Pen, um dispositivo com formato de caneta capaz de determinar, em cerca de dez segundos, se um tecido analisado durante uma cirurgia é saudável ou cancerígeno. Apelidada de “caneta que detecta câncer”, a tecnologia promete transformar a precisão e a agilidade dos procedimentos oncológicos.
O funcionamento do equipamento é uma adaptação de uma técnica analítica sofisticada: a espectrometria de massas. Utilizada tradicionalmente em perícias forenses, controle de qualidade de alimentos e exames antidoping, a espectrometria agora entra no campo médico para desvendar a “impressão digital biológica” dos tecidos.
Como a tecnologia funciona
A MasSpec Pen opera acoplada a um espectrômetro de massas, um aparelho que identifica e compara as moléculas presentes em uma amostra, revelando sua composição química e proporção. No bloco cirúrgico, o protocolo é simples: o médico encosta a ponta da caneta no tecido suspeito. O dispositivo libera, então, uma microgota de água estéril, que em contato com a superfície por poucos segundos, extrai moléculas do tecido.
Essa amostra molecular é imediatamente aspirada e transportada para o espectrômetro, que realiza a análise em tempo real. O sistema processa o padrão molecular do tecido e, quase instantaneamente, exibe na tela se a área é maligna ou benigna.
O processo leva menos de 90 segundos. Este é o principal diferencial, eliminando a necessidade do demorado exame de congelação, que pode levar mais de uma hora e meia e exige que o paciente permaneça sob anestesia. Conforme explicado por Lívia Eberlin, “é como fazer um café: a água extrai as moléculas da amostra sólida, mas não remove o tecido. A análise é instantânea e não causa nenhum dano.”
Estudo Clínico Pioneiro no Brasil
O potencial de disrupção da MasSpec Pen ganha um marco com o primeiro estudo clínico fora dos Estados Unidos, conduzido no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, em parceria com a multinacional Thermo Fisher Scientific.
O ensaio brasileiro visa validar a eficácia do dispositivo em casos desafiadores, como cânceres de pulmão e tireoide, acompanhando 60 pacientes ao longo de 24 meses. Além da rápida detecção de margens tumorais, os pesquisadores investigam se a tecnologia pode ir além, identificando o perfil imunológico de cada tumor. Essa informação é crucial para definir a estratégia de tratamento mais personalizada, seja por imunoterapia ou quimioterapia, agregando valor científico e clínico à inovação. A expectativa, após a conclusão dos testes e a eventual aprovação regulatória, é que a MasSpec Pen torne as cirurgias oncológicas mais seguras e precisas em todo o mundo.




