Vozes que ecoam: Gabriela Botelho conquista o Miss Brasil Mundo com discurso sobre escuta e humanidade

​Entre o simbolismo da representatividade indígena e o peso do voluntariado em Brumadinho, a mineira que representou Sergipe redefine o papel da beleza no Teatro Caesb.

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A 64ª edição do Miss Brasil Mundo, encerrada na noite deste sábado em Águas Claras (DF), entregou a coroa a uma figura que parece ter compreendido a transição do certame: da estética pura para a narrativa de impacto social. Gabriela Botelho, empresária mineira que vestiu a faixa de Sergipe, desbancou 24 concorrentes em uma noite marcada por discursos de profundidade humanitária e quebras de barreiras históricas. O pódio, um retrato da diversidade regional brasileira, foi completado por Maria Cecília Nóbrega (Pará) e Carolina Faria (Rio de Janeiro).

 

O percurso até a vitória não se limitou ao desfile técnico ou ao traje esportivo. Durante o confinamento, as candidatas enfrentaram um crivo rigoroso de provas preliminares que testaram talentos e oratória, definindo um Top 15 plural. Foi nesse cenário que Tainá Marrirú, do povo Iny Karajá, inscreveu seu nome na história do concurso. Embora não tenha alcançado as fases finais, a presença da primeira mulher indígena na passarela do Miss Brasil Mundo sinaliza uma abertura necessária, ainda que tardia, para a pluralidade étnica das raízes brasileiras.

Gabriela Botelho, vencedora do Miss Brasil Mundo 2026

 

O diferencial que consolidou a vitória de Botelho, entretanto, emergiu no momento mais temido das competições de beleza: a rodada de perguntas. Questionada sobre as transformações urgentes para o país, a empresária resgatou sua vivência de cinco anos como voluntária no cenário pós-tragédia da barragem de Brumadinho. Em uma análise que foge ao clichê assistencialista, Gabriela refutou o conceito de “dar voz aos desassistidos”, argumentando que o silenciamento não reside na falta de fala de quem sofre, mas na surdez de quem detém o poder de agir.

A vencedora, que também atua como embaixadora das doenças raras na Casa de Maria, utilizou o palco para convocar uma mudança de postura na sociedade brasileira. Para Botelho, a eficácia das políticas públicas e das ações sociais depende menos de discursos e mais do exercício da escuta ativa. Ela pontuou que mães e vítimas de desastres já estão gritando suas necessidades; falta ao restante da população a capacidade de traduzir esse som em ação concreta.

Agora, Gabriela Botelho inicia sua preparação para a etapa internacional, levando consigo um discurso que substitui a passividade da beleza tradicional pela urgência do compromisso cívico. O título conquistado no Distrito Federal não representa apenas a consagração de uma modelo, mas o reconhecimento de que, no atual cenário global, a coroa é um acessório de amplificação para quem já tem o que dizer.

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