Tragédia em Irecê (BA): Inquérito apura como mutirão oftalmológico terminou em cegueira e morte

​Investigação policial e processos judiciais tentam reconstruir a cadeia de erros no Hospital Ceom, onde 24 pacientes sofreram infecções graves após injeções intravítreas.

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​O que deveria ser um procedimento de rotina para preservar a autonomia de idosos em Irecê, no norte da Bahia, transformou-se em um pesadelo sanitário que agora mobiliza a Polícia Civil e o Poder Judiciário. O centro da crise é o Hospital Ceom, onde um mutirão de aplicações intravítreas, técnica comum para tratar doenças como a degeneração macular, resultou em um surto de endoftalmite, uma inflamação ocular severa causada pela entrada de micro-organismos no globo ocular. O caso mais grave é o de Gilberto Pereira Pontes, de 72 anos, que não resistiu às complicações do quadro infeccioso e faleceu no último dia 31 de março.

​A trajetória de Gilberto entre a busca pela cura e o óbito durou pouco mais de um mês. Após o procedimento realizado em 28 de fevereiro, o idoso desenvolveu dores agudas que culminaram na perda total da visão em ambos os olhos. Segundo a defesa da família, a tentativa de reverter a infecção no próprio hospital teria sido marcada por novos traumas: o paciente teria sido submetido a aplicações de antibióticos sem anestesia, o que o levou a interromper o tratamento devido à dor insuportável. Debilitado fisicamente e em estado depressivo pela perda repentina da autonomia, Gilberto morreu em outra unidade de saúde, fato que o hospital tenta usar para afastar o nexo causal entre a cirurgia e o falecimento.

​A ofensiva jurídica, liderada pelo advogado Joviniano Dourado Lopes Neto, não mira apenas a clínica particular. A ação protocolada no Tribunal de Justiça da Bahia inclui a Secretaria de Saúde do Estado (Sesab) e a Vigilância Sanitária no polo passivo, sob o argumento de responsabilidade solidária na fiscalização do mutirão. Enquanto isso, o cotidiano de outros 23 pacientes foi permanentemente alterado. Relatos como o de Genivaldo Batista de Souza, de 58 anos, expõem o contraste entre a expectativa do tratamento e a realidade da cegueira. Genivaldo, que buscava nitidez, agora lida com a escuridão total em um dos olhos e a visão comprometida no outro, dependendo de terceiros para as tarefas mais simples.

​No campo policial, a operação de busca e apreensão realizada na última segunda-feira recolheu prontuários e documentos técnicos que serão fundamentais para determinar se houve falha na esterilização de materiais, contaminação de medicamentos ou negligência no protocolo de assepsia. O Ministério Público também acompanha o caso para avaliar se a escala dos danos configura um crime contra a saúde pública. O Hospital Ceom afirma colaborar com as autoridades, embora conteste a relação direta entre seus procedimentos e a morte de Gilberto. O desfecho das análises técnicas determinará se a tragédia em Irecê foi um acidente estatístico isolado ou o resultado de uma grave precarização do atendimento médico na região.

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