Ouro negro ou miragem? A descoberta que divide o Sertão cearense entre o lucro e a sede

​Achado fortuito em Tabuleiro do Norte revela hidrocarbonetos na Bacia Potiguar, mas silêncio da ANP e risco ambiental mantêm agricultores e pesquisadores em compasso de espera.

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O que deveria ser o alento de um poço artesiano contra a aridez do Vale do Jaguaribe transformou-se em um enigma geológico. No Sítio Santo Estevão, zona rural de Tabuleiro do Norte, a perfuração de 40 metros que buscava água encontrou, em dezembro de 2024, um líquido viscoso e escuro. O material, que exala o odor penetrante característico dos combustíveis fósseis, colocou o Instituto Federal do Ceará (IFCE) em alerta e reacendeu o debate sobre a expansão da fronteira petrolífera na Bacia Potiguar.

 

A análise preliminar, realizada em parceria com o Núcleo de Pesquisa em Baixo Carbono da Ufersa, em Mossoró, confirmou as suspeitas: as propriedades físico-químicas da amostra coincidem com o petróleo extraído em jazidas vizinhas no Rio Grande do Norte. Geograficamente, o otimismo encontra lastro na proximidade; a propriedade do agricultor Sidrônio Moreira está a apenas 11 quilômetros de um bloco de exploração oficial. Contudo, entre o provete do laboratório e a extração industrial, existe um abismo regulatório e técnico que o governo federal ainda não se dispôs a atravessar.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) detém o monopólio da validação. Sem o aval do órgão regulador, o “petróleo de Tabuleiro” permanece em um limbo jurídico. Notificada há mais de seis meses, a agência mantém um silêncio que reflete tanto o gigantismo da demanda nacional quanto a complexidade logística de avaliar novas ocorrências em áreas fora dos blocos de leilão vigentes.

 

A questão, porém, transborda a economia. O engenheiro Adriano Lima, do IFCE, atua na linha de frente para conter uma possível “corrida pelo ouro” artesanal. O risco é duplo: a toxicidade direta do manuseio inadequado e a ameaça irreversível ao patrimônio hídrico da região. Em um ecossistema onde a água é o ativo mais escasso, perfurações clandestinas em busca de hidrocarbonetos podem contaminar aquíferos e transformar uma promessa de riqueza em um desastre ambiental de proporções definitivas.

Há também o fator de mercado. A Bacia Potiguar, embora historicamente produtiva, enfrenta desafios de atratividade. Leilões recentes realizados pela ANP em 2025 terminaram sem lances, evidenciando que a existência de óleo no subsolo não garante viabilidade comercial. Fatores como a profundidade da reserva, o custo de refino e a infraestrutura logística determinam se um poço é um ativo ou apenas uma curiosidade geológica.

Para Sidrônio Moreira, o homem que iniciou a jornada cavando em busca de vida para sua plantação, a geopolítica do petróleo é um ruído distante. Diante da viscosidade escura que brotou da terra, sua prioridade permanece inalterada e pragmática. No coração do Sertão cearense, a esperança de prosperidade fóssil ainda perde para a urgência da água potável. O veredito final agora depende de uma burocracia que caminha em ritmo muito mais lento que a necessidade de quem tem sede.

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