Ah, o Oito de Março. O dia em que o capitalismo, em um surto de generosidade sazonal, resolve que um cupom de 10% de desconto em fritadeiras elétricas e uma rosa de plástico com cheiro de naftalina são compensações justas por séculos de “fique quietinha que você fica mais bonita”. É a data oficial do “parabéns por ser essa guerreira”, um eufemismo romântico para “parabéns por aguentar uma carga mental que faria um processador de última geração entrar em combustão espontânea”.
Convenhamos, o mundo tem uma habilidade quase lírica de romantizar o cansaço feminino. A “multitarefa” não é um dom divino; é uma estratégia de sobrevivência desenvolvida por quem precisa redigir um relatório geopolítico, impedir que o gato derrube o café e lembrar o parceiro de que o lixo não caminha sozinho para a calçada, tudo isso antes das nove da manhã. É uma arquitetura do caos, onde a mulher equilibra o orçamento doméstico com a precisão de um ministro da Fazenda, mas ainda precisa ouvir que “mulher não entende de números”.
A mulher contemporânea é, de fato, um mosaico. Mas um mosaico daqueles feitos com estilhaços de vidro: brilha, mas se você tentar apertar demais, corta. Ela ocupa os gabinetes de vidro e as redações com uma competência que irrita os medíocres, enquanto o mundo, esse grande sommelier de comportamentos alheios, tenta decidir se ela é “líder demais” ou “sensível de menos”. Se ela é incisiva, é histérica; se é ponderada, é frágil. É o eterno equilibrismo em um salto agulha sobre uma corda bamba feita de expectativas sociais contraditórias.
E o que dizer da “intuição feminina”? Outro rótulo charmoso para o que, na verdade, é uma análise de dados ultrarrápida baseada em anos observando microexpressões de gente que acha que está escondendo algo. Não é magia, é inteligência de campo. É a mesma agudeza mental necessária para decifrar editais complexos, entender a Bolsa de Valores e ainda conseguir explicar, pela décima vez, que o “lugar de fala” não é um endereço no Google Maps.
Homenagear a mulher hoje deveria exigir, no mínimo, a aposentadoria do termo “guerreira”. Ninguém quer ser guerreira; as pessoas querem férias, reconhecimento salarial e que o mundo pare de tratar a autonomia feminina como um evento de gala uma vez por ano. Ser mulher no século XXI é ter o direito de ser brilhante, medíocre, ambiciosa ou absolutamente preguiçosa, sem que isso seja usado como tese sociológica sobre a “natureza feminina”.
Portanto, que este oito de março seja menos sobre a “delicadeza das flores”, que, aliás, morrem em três dias, e mais sobre o respeito que sobrevive ao resto do calendário. Que a crônica de hoje não seja um afago na consciência de quem só lembra da igualdade quando o feed do Instagram exige um post com a hashtag #GirlPower. Afinal, a igualdade não é um capítulo de um livro de ficção científica; é só o básico. E o básico, meus caros, não deveria precisar de feriado para ser notado.





