A resposta de Pequim e Moscou ao avanço da Operação Southern Spear transcende a retórica diplomática tradicional, mergulhando o sistema financeiro global em um território de retaliação assimétrica onde as notas de repúdio no Conselho de Segurança da ONU são apenas a superfície de um embate muito mais profundo. O que se desenha nos bastidores é um contra-ataque econômico coordenado, desenhado para atingir o ponto mais sensível da estabilidade ocidental: a confiança nas cadeias de suprimento e a hegemonia secular do dólar.
Para o Kremlin, a agressão armada deste 3 de janeiro é lida como um comportamento de força que viola o Direito Internacional, motivando uma contraofensiva baseada no que analistas chamam de escudo de commodities. Moscou já sinalizou que o agravamento das tensões na Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, terá consequências imprevisíveis para o Ocidente, sugerindo que a Rússia poderá utilizar seu peso na OPEP+ para estrangular a oferta global e forçar um choque de preços capaz de neutralizar qualquer ganho estratégico americano sobre as bacias venezuelanas.
Paralelamente, a China, na condição de principal credora e compradora do petróleo bruto de Caracas, encara a captura de Nicolás Maduro como um ato de pirataria internacional que ameaça diretamente investimentos bilionários em infraestrutura e energia. A reação de Pequim manifesta-se em uma estratégia multifacetada que prioriza a aceleração da desdolarização, expandindo o uso do Yuan em transações de energia com o Sul Global para tentar isolar o sistema financeiro de Washington.
O risco iminente de restrições à exportação de terras raras e tecnologias essenciais para empresas americanas coloca a Venezuela como o novo pretexto para uma guerra comercial definitiva, enquanto a utilização de sistemas de pagamento paralelos permite que a China continue financiando estruturas aliadas, desafiando abertamente o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos.
Neste cenário de placas tectônicas em movimento, o Brasil encontra-se em meio a uma tempestade perfeita, posicionado no fogo cruzado entre a pressão política da Casa Branca e a dependência vital de fertilizantes russos e capitais chineses. A volatilidade do petróleo, que já opera em alta desde as primeiras notícias do bloqueio, exerce uma pressão imediata sobre a Petrobras e a inflação doméstica, transformando a crise vizinha em um problema de mesa de jantar para o cidadão brasileiro.
A economia global, ainda marcada pelas cicatrizes de conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, vê-se agora obrigada a precificar uma guerra de grandes proporções no coração da América do Sul, onde as armas decisivas não são apenas os mísseis que cortaram o céu de Caracas, mas contratos de câmbio, fluxos de exportação e a diplomacia do barril.





