O triunfo do barro: do improviso ao topo da arquitetura mundial

​A reforma da "Casa de Mainha", no agreste pernambucano, conquista o prestigiado prêmio ArchDaily 2026 ao elevar materiais vernaculares ao estado de arte

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Em Feira Nova, cidade com pouco mais de 20 mil habitantes encravada no interior de Pernambuco, o luxo acaba de ser redefinido. Não se trata de mármores importados ou automação de última geração, mas da dignidade do adobe, da cerâmica e da luz solar. A “Casa de Mainha”, projeto assinado pelo arquiteto Zé Vagner, acaba de ser anunciada como a vencedora do prêmio Building of the Year 2026 na categoria “Casas”, uma das honrarias mais cobiçadas da plataforma global ArchDaily. O feito coloca uma residência popular brasileira no mesmo panteão de obras vanguardistas assinadas em países como Dinamarca, Japão e Estados Unidos.

 

O ponto de partida da intervenção foi a residência de Nalva Noivas, mãe do arquiteto, uma estrutura erguida na década de 1980 que, como tantas moradias brasileiras, cresceu sob o signo do improviso. O que antes era um aglomerado de “puxadinhos”, labirintos de alvenaria com ventilação precária e baixa luminosidade, foi submetido a uma cirurgia arquitetônica precisa. Zé Vagner não buscou apagar as memórias contidas nas paredes originais, mas sim libertá-las dos problemas estruturais que comprometiam, inclusive, a saúde respiratória da família.

A inteligência do projeto reside na subversão do conceito de “baixo custo”. Ao utilizar materiais típicos da região, como a madeira e o ladrilho, o arquiteto provou que a estética contemporânea pode e deve ser sustentável e contextualizada. A reforma priorizou o fluxo de ar e a abertura de vãos, transformando a casa em um organismo que respira e dialoga com o clima do agreste. O resultado é um espaço arejado e funcional que refuta a necessidade de manutenções onerosas ou sistemas artificiais de climatização.

 

A escolha da Casa de Mainha pelo público e pela curadoria do ArchDaily, em um universo de mais de 120 mil votos, sinaliza uma mudança de paradigma no campo da arquitetura internacional. O reconhecimento de uma obra em Feira Nova, a 70 quilômetros do Recife, valida a arquitetura como ferramenta de transformação social e afetiva. Vagner demonstra que o olhar atento para a ancestralidade e para as necessidades humanas mais básicas, como o direito à luz e ao ar, é capaz de produzir uma beleza universal que ressoa muito além das fronteiras de Pernambuco.

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